Fábio Inácio Pereira
"O POVO BRASILEIRO E
SEUS 500 ANOS"
Entender o sentido
do que somos e do que projetamos ser enquanto povo, constitui-se um desafio que poucos se
propuseram a pensar. A questão está relacionada à realidade com a qual nos encontramos,
imersos em reflexões de outros contextos, distanciamo-nos das nossas origens e da
história que construímos.
Nesse desafiante caminho de nos tornar explicáveis Darcy Ribeiro em sua obra, "O
povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil", desenvolveu um conjunto
teórico a partir do nosso contexto histórico. Subjacente à descrição desta teoria
encontramos um brasileiro profundamente preocupado em entender por que caminhos passamos
que nos trouxeram a distâncias sociais tão profundas no processo de formação nacional.
Com uma impressionante simplicidade mas ao mesmo tempo profunda preocupação de quem
esteve entre os índios durante a maior parte de sua vida, Darcy retoma o processo de
gestação do Brasil e dos brasileiros como povo. Num trabalho de reconstituição
enfatiza a união entre as matrizes índia, portuguesa e negra do brasileiro.
Um povo novo, fruto da mestiçagem de três raças fez surgir um novo gênero humano.
Segundo ele, uma nova gente, mestiça na carne e no espírito. E o que mais o impressionou
é que essas matrizes tão distintas que se enfrentam e se fundem no brasileiro não
resultou num conjunto multiétnico. Diz (1996, p. 20): "... apesar de sobreviverem na
fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla
ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou
regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à
nação".
Propõe assim que, apesar das diferentes matrizes raciais nas quais se formaram os
brasileiros, também por questões culturais e por situações regionais, "os
brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma
etnia". Forma uma etnia nacional única, um só "povo incorporado".
Segundo Darcy, formamos a maior presença neolatina no mundo. Somos uma "nova
Roma". Contudo, melhor, porque racialmente lavada em sangue índio e em sangue negro.
Esta nossa singularidade nos condena a inventarmos a nós mesmos. Somos desafiados a
construir uma sociedade inspirada na propensão indígena para o convívio cordial e para
a reciprocidade, e a alegria saudável do negro extremamente alterativo.
Mas o fato é que neste mesmo processo se consolidaram inumeráveis antagonismos
sociais de caráter traumático. Diz (1996, p. 120): "A mais terrível de nossas
heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e
pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que encandece, ainda hoje, em
tanta autoridade brasileira predisposta a tortura, seviciar e machucar os pobres que lhes
caem às mãos".
Sujeitos a burocratas autoritários e empresários poderosos estamos a construir mais
500 anos de nossa história, outrora sob o fio da espada e sob a cruz, hoje sob
"bombas financeiras".
Como em todos os momentos de tensões e conflitos, ainda que alguém possa insistir em
reconhecer, este também obriga-nos a redefinir nossa identidade. Pois a ordem mundial
retornou às antigas épocas das conquistas da América, da África e da Oceania.
Nessa nova forma de ataque às nações, ocupando os territórios, destruindo as bases
materiais de sua soberania e produzindo seu despovoamento qualitativo temos a
exclusão de todos os inaptos à nova economia. Nessa dinâmica o econômico prevalece
sobre o social.
O mundo indígena está repleto de ataques que podem ilustrar essa estratégia: Ian
Chambers, diretor responsável pela América Central da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), declarou que a população indígena mundial (300 milhões de pessoas)
vive em zonas que contêm 60% dos recursos naturais do planeta. "Não admira,
portanto, que surjam inúmeros conflitos pelo domínio das terras. (...)A exploração de
recursos naturais (petróleo e minas) e o turismo são as principais indústrias que
ameaçam os territórios indígenas na América".
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, ao contigente de
empobrecidos no mundo todo, cerca de 1,3 bilhões de pessoas, juntam-se a cada minuto mais
47 pobres. Na América Latina, em decorrência de uma dívida externa absurda, cada
criança já nasce devendo U$ 1 mil dólares para um banco em alguma parte do mundo. Pelo
relatório do CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), órgão da ONU, há
cerca de 196 milhões de latino-americanos vivendo em estado de pobreza, ou seja, 45% da
população global. Ao menos a metade desse número vegeta em situação de indigência e
miséria extrema.
Sob o domínio estrangeiro, os interesses e as aspirações do povo brasileiro jamais
foram levados em conta. Porque só se tinha atenção e zelo no atendimento dos requisitos
de prosperidade daqueles.
O desafio do brasileiro é o de constituir um povo em si, com consciência de si mesmo
realizando cada vez mais as suas potencialidades. Rompendo os elementos que desgarra e
separa os brasileiros em componentes opostos que é a estratificação de classes.
Nestes cinco séculos de nossa história trazemos marcas profundas, as quais não
encontramos na maioria de nossos livros. Vivemos ainda o desafio de construir um país
decente. Resta a toda sociedade rediscutir a natureza desse processo recriando a
perspectiva do essencial para toda a população. Apontando para a
"racionalidade" e os objetivos capitalistas neoliberais.
Para Darcy, aqui não existe e nunca houve um povo livre, regendo seu destino na busca
de sua própria prosperidade. Mas sim, "... uma massa de trabalhadores explorada,
humilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e
manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer
ameaça de reforma da ordem social vigente". Um povo em ser, impedido de ser. Um povo
que até hoje vive na dura busca de seu destino.
O encontro com a nossa própria identidade acontece à medida que vestimos a nossa
própria pele. Desta forma, vamos recuperando o sabor pela vida. Encurtando espaços,
sendo próximo para o próximo, construindo o outro como pessoa, sempre como fim e nunca
meio de nossa ação. Realizando o humano em todas as suas possibilidades e desejos.
E quem sabe ir de encontro ao destino, que segundo Darcy, o futuro nos reserva, o de
"nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa oposição comum ao mesmo
antagonista, que é a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal como ocorre na
comunidade européia, a Nação Latino-americana sonhada por Bolívar".
Para isso, mais 500 anos! Tarefa muito mais difícil e penosa, mas também muito mas
bela e desafiante.
Fábio Inácio Pereira
Professor de Filosofia e História
Publicado originalmente en www.nobel.com.br/livros/livros2/
(Noviembre de 1999)
© José Luis Gómez-Martínez
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