Ana L. O. D. Ferreira

 

O universo intelectual brasileiro, nas primeiras décadas do século XX, através do texto de
Raízes do Brasil, e outros

 

Sérgio Buarque de Holanda dedica quase todo um capítulo de Raízes... para discutir o papel histórico da intelectualidade no cenário político-cultural brasileiro. Curioso, então, lembrar que embora o título do referido capítulo seja Novos tempos, o Autor não chegava a traçar ali, efetivamente, um quadro do universo acadêmico que ajudava a compor no período em que escreveu e publicou o dito Livro. Nesta parte específica, as especulações no que diz respeito a propostas e modelos de pensamento mais recentes se restringem aos apresentados por uma geração que fora influente em fins do século XIX e princípio do século XX, cujos principais pressupostos, naquela década de 1930, pareciam estar entrando em crise. Podemos dizer, portanto, que a referida Obra não acompanha, de fato, as reflexões de intelectuais que hoje se diz que haviam tornado os mais influentes no cenário brasileiro, e que defendiam projetos inovadores – estou falando mais especificamente dos literatos de vanguarda, entre nós chamados modernistas, que inspiraram e se relacionaram com toda uma geração de ensaístas, mais tarde, pesquisadores universitários.

Talvez tal fato decorra de uma impressão, por parte de Sérgio, segundo a qual, no final das contas, ainda que fossem surgindo novas idéias, o modus operandi do pensador brasileiro permanecia o mesmo – a elitização e a imitação continuariam sendo, aos seus olhos, no âmbito da produção de conhecimento, nossos principais paradigmas. Contudo, o certo é que mudanças claras (em grande parte, aliás, relacionadas às que Sérgio apresenta no capítulo seguinte de Raízes..., chamado Nossa revolução) iam sendo vivenciadas e trabalhadas pelos pensadores, pesquisadores, poetas e romancistas do Brasil do período; os quais não apenas escolheram conceitos outros, mas formas diversas de tomá-los, de dialogar sobre eles, de apresentá-los aos demais setores da sociedade. Neste texto me concentro na reflexão acerca dessas alterações – remetendo às propostas analíticas de Rama –, assim como as possíveis relações entre elas e o texto de Raízes....

Desta forma – delimitando os mais diversos interesses e prioridades dos intelectuais daquela época – acredito poder apresentar a partir de quais pontos se estabeleciam suas “redes de sociabilidade”.  De antemão declaro, pois, que meu ponto de vista é que sobretudo, entre tantos pensadores, pesquisadores e literatos, destaca-se o remeter às temáticas da “modernização” (que envolve a especialização profissional), da “democratização” (que envolve a ampliação do acesso aos saberes) e da “nacionalidade” (que envolve a reflexão sobre a tradição) – permitindo-se que se esboce um diálogo com A cidade... – e, paralelamente à elas, uma tentativa de reavaliar o significado da colonização portuguesa nas terras hoje denominadas brasileiras.

 

1. Formação da intelectualidade no Brasil:
aspectos institucionais e o papel da imprensa

Ao longo de vários momentos do texto de Raízes..., Sérgio parece propor que o Brasil estaria em desvantagem em relação a outros países da Ibero-América (principalmente o México), no que diz respeito à situação do intelectual. Neste primeiro capítulo analiso, então, até que ponto as proposições de Sérgio são reiteradas por pesquisadores a nós contemporâneos, e também quais as possíveis especificidades da conjuntura brasileira de princípios do século XX, no que tange à formação da intelectualidade, e com realce na área das Humanidades.

Antes de mais, faz-se mister destacar que, como é sabido, o Brasil da primeira década dos novecentos carecia de universidades. Além disso, ainda que na Bahia, no Rio de Janeiro e em São Paulo funcionariam, sim, renomadas faculdades específicas de Economia, Agricultura, e Direito; aqui não existiam instituições de ensino superior voltadas cuidadosamente à crítica literária, à Filosofia, ao estudo da História.

É claro que isso não impediu que entre nós se desenvolvesse uma larga produção intelectual, em organizações ligadas ao governo, tal como a Academia Brasileira de Letras e os Institutos Histórico-Geográficos. Porém, esses núcleos quase sempre estiveram associados a um modus operandi pouco ou nada “profissional” – seus integrantes não tinham de necessariamente produzir com regularidade, não eram especializados, e nem tinham na reflexão e na escrita seu principal meio de remuneração.

A ABL, criada no ano de 1896, era, já em princípios do século XX, uma instituição de relevo inquestionado em todo o país. Lá se encontravam, para discutir os rumos da Literatura nacional, um número restrito de escritores que, para tornarem-se membros, haviam sido selecionados por membros mais antigos, e especificamente por estes julgados os mais talentosos escritores do Brasil. Núcleo parnasiano, liderado pela figura de Olavio Bilac, promovia a divulgação de diversos poemas, crônicas e artigos críticos, mas apenas aqueles que atendessem ao modelo ali consensual, acerca do que seria bom e útil literariamente falando. Os textos publicados por ela, pois, quase sempre correspondiam à doutrina da “arte pela arte” pregada pela revista francesa Le parnasse contemporain – uma preocupação constante com a métrica, com a erudição, e com a crítica dos ideais do romantismo (MARTINS: 1978, p. 57 e 137).

Os principais opositores dos parnasianos brasileiros eram os escritores ditos simbolistas, inspirados na obra do célebre autor francês Charles Baudelaire e defensores do verso livre e de uma literatura mais crítica e emocionada; nas palavras de Wilson Martins, compuseram estes um movimento “boêmio, espiritualista, satírico e anti-acadêmico” (Idem, p. 140). Bom lembrar, contudo, que, embora tenham representado um papel fundamental como contraponto para as idéias naquela época dominantes no cenário brasileiro, diz-se que estes autores atuaram, no Brasil, de maneira marginal.

No que diz respeito ao IHGB, temos que, fundado quando da presença de D. Pedro II como governante do Brasil (ainda nas primeiras décadas dos novecentos), conforme a análise de Claudia Regina Calarri mantinha o perfil elitista, e mantinha-se atrelado às forças políticas predominantes. Para usar palavras desta pesquisadora:

O perfil dos membros que engrossaram [suas] fileiras (...) foi este: elementos oriundos da burocracia estatal, logo comprometidos com a ordem que representavam – apesar (...) [de se definirem] como instituição político-cultural, [supostamente] apartada, desse modo, dos debates políticos. (CALARRI, passim)

Bom destacar também que, de acordo com Calarri, a influência do IHGB não se limitava aos muros do instituto, mas se desdobrava em espaços de sociabilidades freqüentados por seus integrantes: escritórios, igrejas, jornais, editoras, etc.

Soma-se a isso a seguinte relevante impressão de Wilson Martins, acerca da maneira como esses intelectuais não apenas se relacionavam com os não-intelectuais ou com os não-pertencentes ao grupo, mas à forma como costumavam desenvolver seus trabalhos: eram pouco profissionais e nada metódicos, tendendo a “perpetuar o nosso tradicional autodidatismo, com a inevitável desordem mental que ele implica.” (MARTINS: 1978, p. 30)

Porém, faz-se mister pontuar, aqui, que, ao contrário do que se possa supor, os pesquisadores ligados a este grupo notavam sim um dos maiores problemas vivenciando pelo meio intelectual brasileiro da época – a parca institucionalização das Humanidades. Como uma tentativa de remediar a total carência, no Brasil, de uma instituição de ensino superior voltada à Filosofia, à História e à Teoria Literária, em 1915, por exemplo, chegaram a se unir para a criação de uma Faculdade de Filosofia e Letras, que chamaram (inspirados no modelo francês) Escola de Altos Estudos. Sem suficiente apoio estatal, entretanto, o curso pouco durou – já no ano de 1920 as aulas foram definitivamente interrompidas (Idem, p. 29). Em 1927, conveniado a universidades norte-americanas, o IHGB esboçou ainda um programa para a criação de uma nova Escola de Estudos Brasileiros, que, contudo, não chegou nunca a funcionar (Idem, p. 412).

Como nos afirma Wilson Martins, apenas em 1920 nosso então presidente Epitácio Pessoa apresentava um louvável empreendimento, no campo do ensino superior brasileiro: a Universidade do Rio de Janeiro – neste país, a primeira a funcionar com financiamento integral do governo federal, e a única autorizada a expedir diplomas de validade para todo o território da nação (Idem, p. 188). Conforme Ana Walesca P. C. Mendonça, contudo, organizada pela articulação de escolas profissionalizantes que já existiam na então capital federal – a Escola Politécnica, a Escola de Medicina e a Faculdade de Direito –, não teria promovido um diálogo efetivo entre os cursos, nem qualquer alteração nos antigos programas, não chegando a compor alternativa verdadeiramente inovadora para a formação de nossa intelectualidade (MENDONÇA: 2000, p. 136). É justamente em face de tais problemáticas que, pontua Martins, em 1927 tal instituição (mais especificamente seu curso de Direito) vem organizar um primeiro congresso visando ampla discussão especificamente acerca da maneira como se vinha processando e como se deveria vir a processar a profissionalização de nossos intelectuais.

De acordo com Mendonça, entretanto, em fins da década de 1920 duas outras empresas autônomas, no que diz respeito ao Estado, teriam representado um papel mais significativo no debate a respeito da problemática do ensino universitário: o jornal O Estado de São Paulo (através da figura de Fernando Azevedo) e a Associação Brasileira de Educação, com “filiais” em diversos estados na nação (e da qual fazia parte aquele que seria o primeiro responsável oficial pelo Ministério da Educação, criado em 1931 por Vargas – o senhor Francisco Campos) (Idem, p. 137).

Pode-se supor, com base nos parágrafos acima, que as possibilidades de ingresso em instituições oficiais voltadas ao estudo de Filosofia, História e Literatura foram absurdamente restritas, no Brasil, até a década de 1930. Na realidade, de maneira diversa, como nos apontam os dados expostos por Wilson Martins, no último volume de sua História da Inteligência brasileira, o ensino no Brasil de então era muito mais plural do que se convém supor:

[Já em 1929,] neste país tido como bacharelesco, havia 14 faculdades de Direito, contra 151 de ensino artístico-industrial; acrescentem-se 16 escolas politécnicas, 57 agrícolas, 46 comerciais, 36 militares, 6 de Higiene e 190 de Pedagogia. Eram 11 as escolas médicas, 23 as farmacêuticas (MARTINS: 1978, p. 451-452).

Não julgo, contudo, que o quadro apresentado por este pesquisador venha a desmontar a hipótese de que um “bacharelismo” seria predominante entre nós: as instituições de ensino por Martins tomadas para catalogação não pretendiam especificamente a formação de pensadores, pesquisadores da Historia e da Sociedade, e/ou como críticos literários. – não visava a “produção” de reflexões, mas o “ensino”.

Defendo, portando, a idéia de que mais comum teria sido que jovens interessados em trabalhar como “profissionais/ especialistas” nestas áreas tenham buscado diálogo e projeção sobretudo em editoras de livros, revistas e jornais; alternativa esta que, em princípios do século XX, com a diminuição do analfabetismo e o desenvolvimento das técnicas de impressão e merchandaising, se tornou a mais viável, também financeiramente (OLIVEIRA: 1980, p. 34 & MICELI: 1979, p. 78). De maneira diversa da que ocorreu no México, pois, no Brasil, foi na imprensa, mesmo sem vínculos oficiais e estabilidade, que se formou uma geração “moderna” de profissionais do pensar e escrever que viriam, mais tarde, ajudar a promover e legitimar a realidade universitária.

Aliás, será um grupo ligado justamente a um dos maiores jornais do período – E Estado de São Paulo – que, como veremos, ajudará a compor um dos primeiros efetivamente significativos empreendimentos no campo do ensino superior – a Universidade de São Paulo.

Um bom exemplo disso é o próprio Sérgio, que formou-se advogado pela faculdade de Direito do Largo do São Francisco, mas, interessado (a princípio) mais especificamente pelo universo literário, passou a trabalhar em vários periódicos – no Rio de Janeiro (a partir de 1928) atuou no Rio Jornal, Idéia Ilustrada e em O Jornal, de Assis Chateaubriand; fundou e contribuiu em inúmeras revistas ligadas ao movimento modernista; no Espírito Santo foi diretor de O progresso. A imprensa, então, teve, para ele, importância definitiva: foi não apenas um espaço através do qual adquiriu respeitabilidade e conhecimentos na área específica na qual se consagraria – a História –, mas uma maneira por meio da qual se pôde sustentar financeiramente.

Importante lembrar, então, que é justamente como jornalista que Sérgio intenta publicar Raízes...: é como jornalista que viaja ao estrangeiro e tem acesso, na Universidade de Berlim, às mais novas perspectivas da historiografia e sociologia internacionais, do período; é também pelas boas relações que estabeleceu na imprensa periódica, que consegue que seu livro viesse a publico por uma editora de renome – a José Olympio;

Após a chamada Revolução de 1930, o Estado varguista, atento à formação da intelectualidade brasileira, passou a atuar na dianteira deste movimento, intervindo no âmbito da elaboração, difusão e legitimação de idéias, pesquisas, textos, livros. É neste momento que, em nosso país, as noções de que era necessário modernizar as instituições de ensino e pesquisa, assim como de democratizar o acesso ao saber são incorporadas mais seriamente pela agenda governamental. No que diz respeito à criação de produtos culturais, Vargas garantiu o sustento da classe intelectual, tanto com financiamento de obras e eventos, quanto com a inclusão de intelectuais ligados às mais diversas filiações, nos mais diversos setores da burocracia administrativa.[1]

É aliás a inclusão dos ditos “homens letrados” no seio do regime uma questão freqüentemente revisitada por historiadores atuais. Lahuerta, por exemplo, parte de influências teóricas gramscinianas para propor em seus trabalhos uma compreensão acerca do significado dos poderes políticos exercidos no Brasil durante o Estado Novo, na qual reforça a idéia de que o governo tinha de obter legitimidade atendendo os interesses de amplas parcelas da população, se articulando a diversos grupos sociais, regulado e regulando-os; o que não poderia ser diferente com os grandes pensadores e artistas do período (LAHUERTA: 1997, 98-114).

Segundo Sérgio Miceli, a intelectualidade brasileira do período usufruiu bem as vantagens de trabalhar para o governo, e costumava justificar o fato de se manter a ele vinculado com a afirmação de que estaria “servindo à nação”.  Conforme este ponto de vista, não se pode negar que os inúmeros pensadores, pesquisadores e literatos que se envolveram sem reserva com a burocracia do Estado varguista o fizeram porque tal envolvimento correspondia a uma demanda essencial da época (MICELI: 1979, p. 159). Para utilizar palavras de Lúcia Lipp de Oliveira: “‘Escreveram [e criaram], porque não puderam fazer ainda outra coisa senão pensar...’ – diziam em 1924. [Já] nos anos subseqüentes a 30, estarão desempenhando um papel [político mais direto] no processo de ‘juntar as pedras’ do Estado nacional.” (OLIVEIRA: 1980, p. 39).

Ângela de Castro Gomes, por fim, apresenta um parecer semelhante, quando afirma haver, naquela conjuntura, apesar de, por vezes, censura e ausência de grande parte dos direitos civis, um considerável espaço de negociação, no qual Estado e intelectuais apresentavam suas cartas, trocavam figurinhas, e investiam competências; faziam exigências e concessões (GOMES: 1999, passim). Portanto, ao mesmo tempo em que elementos com perspectivas distintas podiam vir a alterá-las, quando integrados ao aparelho federal; a crítica às diretrizes políticas tomadas pelo governo getulista podiam ter origem no próprio seio do regime.

As resoluções tomadas durante o governo provisório de Vargas referentes à problemática do ensino superior, no Brasil do período, me parecem bastante ilustrativas das proposições de entendimento acima aludidas. Por exemplo: como já disse, Francisco Campos era um dos principais expoentes da ABE; entretanto, vindo a ocupar o cargo de ministro da Educação, apresentou em 1931 o Estatuto das Universidades Brasileiras, conforme Mendonça, intrinsecamente ambíguo, visto que caracterizado pela tentativa de conciliar os interesses dos mais diversos setores da intelectualidade da nação.  Prevendo que se criasse um Instituto de Alta Cultura – a ser controlado diretamente pelo ministério presidencial – veio, contudo, a receber diversas críticas, inclusive dos representantes da associação a qual pertencera.

No ano seguinte, então, um grupo de integrantes da mesma ABE, elaborando o Manifesto ao Povo e ao Governo, ganhou projeção e passou a ser conhecido como Pioneiros da Educação Nova, ou escolanovistas. O referido texto – condenando o caráter técnico das instituições brasileiras de ensino superior da época – pontuava a necessidade do ambiente universitário passar a articular três funções principais: (1) a de produção do conhecimento, (2) a de formação de pensadores e pesquisadores, e (3) a de difusão de produtos culturais à população em geral. É com base em tal postulado, pois, que Anísio Teixeira, um dos mais expressivos nomes ligados ao dito manifesto, como secretário da educação do estado do Rio de Janeiro, no ano de 1935, irá criar, aquém dos interesses do Ministério da Educação Federal, a Universidade do Distrito Federal. Surgiram, então, compondo e dialogando: uma Escola de Ciências, uma Escola de Educação, uma Escola de Economia e Direito, uma Escola de Filosofia, e um Instituto de Artes (MENDONÇA: 2000, p. 138).

Na capital paulista, em 1934, os já citados intelectuais do jornal O Estado de São Paulo se inspirariam no escolanovismo para a criação de uma universidade local: a parágrafos dantes citada USP. Com ajuda financeira estadual, esta veio a caracterizar-se por uma grande organicidade – uma articulação mais firme entre os mais diversos interesses, no quadro de professores e funcionários – o que teria permitido (afirma Mendonça) que ela se mantivesse e prosperasse significativamente, nas décadas seguintes. Bom destacar também que a USP recuperava o modelo da (antiga) Universidade do Rio de Janeiro – pela incorporação das já existentes escolas profissionalizantes –, mas apresentou, de maneira diversa daquela, uma (nova) Faculdade de Filosofia, que deveria ter a função de inspirar e guiar todos os demais institutos (Idem, p. 139).

A partir de 1934, entretanto, o senhor Gustavo Capanema, ao chegar ao cargo de ministro da educação varguista, recuperará (com força) o projeto de se fortalecer a influência do governo federal na formação universitária de nossos pensadores, pesquisadores e críticos da época. Daí que se manifestasse contrário à existência de uma universidade estadual no Rio de Janeiro, na época capital do país; e passasse a lutar pela criação, ali, de um organismo fundado e gerido por encarregados diretos do presidente, e que funcionasse como modelo para as demais instituições brasileiras voltadas ao ensino superior. Principiaria a efetivação de tal intento em 1937, com o surgimento da UB – Universidade do Brasil – e concluiria em 1938, com a “incorporação” da UDF (Idem, p. 139).

Tomemos em conta, por ora, a partir de tais colocações, que o ministério de Gustavo Capanema, segundo Ângela de Castro Gomes, não expressaria o desejo de compor-se enquanto um organismo “nacional” não apenas por conferir incentivo fiscal a obras e autores, ou na medida em que implementava os mais variados projetos em defesa de uma universidade “brasileira”. Seu próprio modelo de estruturação (dos ministérios, dos organismos federais, das instituições federais) tinha como implícito o interesse nacionalizante, já que envolvia uma estrutura burocrática (treinada, profissional) que incluía tanto intelectuais de esquerda como católicos conservadores, liberais, fascistas – e das mais diversas regiões do país (GOMES: 2000).

Bom lembrar também que a propaganda getulista pregava o elogio de proezas nacionais e valorizava os intelectuais que se dedicavam a pensar e trabalha a noção de “brasilidade”.

Quanto ao interesse pela idéia de “identidade ibero-americana” há de se ressaltar que, entre nossos governantes, (como já disse) foi consideravelmente menos expressivo do que entre outros países ibero-americanos. Pelo menos é o que nos levam a pensar as pesquisas historiográficas mais recentes: enquanto são muitos os estudos desenvolvidos acerca dos diplomatas enviados ao Brasil pelo México; desconheço qualquer pesquisa nacional dedicada a abordar aqueles que teriam sido enviados ao México pelo Brasil. Como veremos no terceiro capítulo, a temática da ibero-mericanidade também foi pouco tomada entre nossos intelectuais – inclusive por aqueles que, voltados à crítica do romantismo e do positivismo, estiveram bastante atentos à concepção de “nacionalismo brasileiro” (por exemplo: os escritores em nosso país denominados “modernistas”).

Em artigo acerca do posicionamento político de Sérgio, Antonio Candido afirma que ele nunca chegou de fato a assumir uma postura bem definida – convidado a integrar o Bloco Operário Camponês, de orientação comunista, em 1929, por exemplo, veio a recusar. Por outro lado, não se pode dizer, conforme Candido, que tenha sido alheio aos acontecimentos políticos de seu tempo – durante a Revolução Constitucionalista (1932) chegou a ser preso por manifestar-se a favor dos insurgentes (CANDIDO: 1998).

Faz-se mister ressaltar, aqui, também, que manteve-se apartado do funcionalismo público, até que, somente após da publicação de Raízes..., ainda que no mesmo ano de 1936, ingressou no universo acadêmico – inicialmente como assistente dos professores Hauser (História Econômica) e Tronchon (Literatura Comparada), na aludida Universidade do Distrito Federal. Voltando a morar em São Paulo, décadas mais tarde, tornou-se, pois, Mestre pela e professor da Escola de Sociologia da USP (1958). Apenas então viajou para o estrangeiro com pretensões especificamente acadêmicas – conheceu os Estados Unidos, a Itália, a França (REIS: 2000, p. 122).

 

2. A prosa de Lima Barreto: aspectos comportamentais
da intelectualidade brasileira de inícios dos novecentos

Pode-se dizer que, em Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), o – hoje célebre, mas na época maldito – prosista carioca Afonso Henriques de Lima Barreto aborda tangencialmente a condição dos intelectuais brasileiros deste período que vai de fins do século XIX a princípios do século XX. Conta-se, ali, a história de um funcionário público que vivera o início do período republicano sonhando sempre com um país diferente, daí ter dedicado toda sua vida ao estudo e a ações que acreditava contribuírem para o engrandecimento do Brasil.

Primeiramente, Quaresma decide promover uma reforma cultural: pesquisando a fundo o “folclore” do país, propôs à Câmara de deputados a adoção do tupi-guarani como nossa língua oficial da pátria; devido a tal exagero patriótico, porém, acabou por ser internado num hospício. Quando, enfim, ganhou a liberdade, concebeu que a maneira mais viável de nos garantir um futuro próspero seria por meio de uma reforma na agricultura: abandonou a vida na cidade grande, e comprou um sítio, julgando ali poder comprovar a tese de que as terras brasileiras seriam as mais férteis do mundo; contudo, em breve percebeu que além de lidar com os obstáculos da própria natureza, teria de enfrentar as inúmeras barreiras administrativas, as altíssimas taxas impostas aos produtos agrícolas, a burocracia rural, a politicagem mesquinha. Sua derradeira tentativa, então, foi uma reforma política: resolveu combater a Revolta da Armada, julgada por ele a priori como uma traição à República, ao Brasil; a participação na batalha, entretanto, abriu os olhos de Quaresma, que teve de encarar uma dura realidade:

O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções? Onde estava a doçura de nossa gente? Pois não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções... A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete (BARRETO: 1995, p. 130-131).

Com o fim da revolta, só e doente, é preso e condenado à morte injustamente, por ter redigido um protesto em defesa de presos políticos. Eis o triste fim de Policarpo Quaresma.

Conforme Alfredo Bosi, Lima Barreto teria enfrentado uma série de dificuldades, em sua formação enquanto intelectual, relativas ao fato de ser mestiço e não dispor de significativos recursos financeiros; o preconceito e a pobreza teriam sido, por exemplo, as principais razões de ter o referido autor abandonado o curso de Engenharia, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Não deixou nunca, porém, de escrever e publicar em diversos periódicos da capital do país, sendo em muito criticado, mas também compondo um corpo de crítica bastante interessante – tanto à comum postura (elitista) da intelectualidade brasileira de fins dos oitocentos, como à maneira de se escrever, então, Literatura (seus textos pouco remetem ao conceito parnasiano de “belo”, naquela época, valorizado) (BOSI: 1969).

Assim, seu protagonista, em Triste fim..., deve ser considerado, creio, como um estereótipo daqueles intelectuais que integravam as Academias de todo o país: carregava consigo, acriticamente, um vasto conhecimento enciclopédico acerca de nossas supostas “virtudes” e especificidades “folclóricas” e “naturais”; um conhecimento que servia como base para sua (ainda que exacerbada, consensual) concepção de “nacionalidade brasileira”.

Porém, a maneira de Quaresma compreender o universo à sua volta também pode ser associada à formação técnica de tantos brasileiros que viveram na transição do século XIX ao XX: quando se muda para o Sítio Sossego, dedica-se às mais recentes descobertas da ciência acerca das leis da natureza, observa com cuidado de especialista as espécies vegetais e animais de sua propriedade, organiza um museu e uma biblioteca agrícola, e se cerca de instrumentos que julga ser úteis para que se viabilizasse uma larga produção de bens alimentícios.

Compõe, assim, – mesmo sem possuir diploma de ensino superior, ou até mesmo por isso – o arquétipo (cômico/trágico, porque exacerbado) do “doutor” do Brasil de princípios de nossa época republicana.

Interessante notar, aqui, que sua fixação por dominar, enciclopedicamente, todo tipo de conhecimento – que dizer, sem criar, apenas reproduzindo o que havia de instituído – vez por outra aparece, na trama de O triste fim..., confrontada a uma suposta maior eficiência dos conhecimentos populares: a esposa do empregado do sítio, curandeira, revela-se mais apta a prever fenômenos meteorológicos do que toda a sua parafernália tecnológica. Ao contrapor essas duas perspectivas (cultura letrada X cultura popular) – acredito – Barreto pretende expor ao ridículo o tão caracteristicamente brasileiro costume de cultuar “bacharéis”. O mesmo é válido, creio, para o capítulo em que um dos personagens é cercado pelo grupo de vizinhos, com olhares e palavras elogiosas, pela simples razão de ter obtido o diploma de Odontologia.

Em Raízes... Sérgio destaca com grande ênfase – e de maneira semelhante a Barreto, em Triste fim... – a permanência, no Brasil de até meados da década de 1930, do costume de se conferir relevância social ao diploma de “doutor”. Mas apresenta uma avaliação que o outro não transparece em sua obra aqui abordada, quando afirma que tal fato deveria ser percebido como herança lusa, já que “em quase todas as épocas da história portuguesa uma carta de bacharel valeu quase tanto como uma carta de recomendação nas pretensões a altos cargos públicos” (HOLANDA: 1999, p. 157).

Uma outra característica que o Autor de Raízes..., lembrando Barreto, sugeriu ser bastante marcante do campo intelectual até os dias em que escrevia Raízes... e que, de uma forma ou de outra, está presente também em Triste fim...: o “amor pronunciado pelas formas fixas e pelas leis genéricas, que circunscrevem a realidade complexa e difícil dentro do âmbito dos nossos desejos” (Idem, p. 157-158). Dela decorreria, segundo mais claramente o texto de Sérgio, a nossa corrente opção por importar modelos filosóficos, morais e comportamentais do estrangeiro; modelos dentre os quais o Autor de Raízes... destaca o positivismo, que tão bem se “encaixou” ao modo de ser brasileiro devido à sua “capacidade de resistir à fluidez e à mobilidade da vida” (Idem, p. 158)[2]... e o liberalismo, cuja “ideologia impessoal (...) jamais se naturalizou [verdadeiramente] no Brasil” (Idem, p. 160).

Como pode-se concluir, remetendo, portanto, às palavras esboçadas na introdução deste artigo, tanto Uma como Outra obra nesta parte tratadas e contrapostas, enfatizam do universo intelectual brasileiro não tanto a modernização das instituições e a democratização destas que, pouco a pouco, parecia vir ocorrendo, mas justamente a necessidade latente de que, logo, fossem, ambas efetivadas – o que ainda prevalecia era um “elitismo” quase doentio.

 

3. O modernismo como movimento de vanguarda brasileiro:
posturas críticas em relação à maneira como se comportavam
e produziam os literatos do Brasil das primeiras décadas do século XX

Já nos primeiro anos da década de 1920 a crítica aos parnasianos podia ser verificada em diversos âmbitos da intelectualidade brasileira. Citamos, nos dois primeiros capítulos, o caso dos poetas simbolistas, e também de Lima Barreto. Além disso, pode-se dizer que, no Rio de Janeiro, mais especificamente na Biblioteca Nacional, em fins dos anos 1910 existiam reuniões periódicas, cujo intuito era discutir os novos rumos que ia tomando ou deveria tomar a poesia e a prosa nacional – estes encontros foram chamados, como nos informa Wilson Martins, “vesperais literárias” (MARTINS: 1978, p. 219).

Em 1922, literatos, pintores e escultores oriundos de vários estados do país, inspirados pelo vanguardismo europeu, organizaram, em São Paulo, alguns dias de exposições, palestras e debates, visando discutir a problemática da Literatura e da Arte no Brasil da época, em oposição aos paradigmas vigentes, dentre os quais, o parnasianismo. O fizeram, contudo, (diferentemente da maneira como até então se tinha feito) com agressividade, ironia e alarme – era a chamada Semana de Arte Moderna, através da qual começou a se projetar o grupo que se auto-denominava “modernista”.[3] A forma com que esboçaram suas críticas fica bastante clara através da leitura do seguinte trecho do discurso proferido na ocasião por um de seus mais célebres integrantes, Graça Aranha:

Ignoro como justificar a função social da Academia [locus privilegiados dos parnasianos, mas da qual fazia parte o próprio Graça Aranha]. O que se pode afirmar para condená-la é que ela suscita o estilo acadêmico, constrange a livre inspiração, refreia o jovem e árdego talento que deixa de ser independente para se vazar no molde da Academia. É um grande mal na renovação estética do Brasil e nenhum benefício trará à língua esse espírito acadêmico, que mata ao nascer a originalidade profunda e tumultuária da nossa floresta de vocábulos, frases, idéias. Ah! se os novos escritores não pensassem na Academia, se eles por sua vez a matassem em suas almas, que descortino imenso para o magnífico surto do gênio, enfim liberto de mais esse terror. Esse “academicismo” não só é dominante na literatura. (...) Por ele tudo o que a nossa vida oferece de enorme, de esplêndido, de imortal, se torna medíocre e triste (MARTINS: 1978, p. 240).

Mas qual teria sido a relevância das vanguardas européias para a concepção de “intelectual” da qual dispunham os ditos “modernistas”, no Brasil? Ao longo deste capítulo, me dedico, intrinsecamente, a sustentar a validade da idéia de que o futurismo teria parecido interessante aos olhos dos modenistas apenas na medida em que propunha um programa de comportamento para a intelectualidade bastante condizente com suas pretensões específicas: os manifestos apresentados por Martinetti, para nossos modernistas/ vanguardistas, foram de importância nodal, na medida em que serviram como a referência necessária de um modus operandi combativo, na luta contra a cristalizada legitimidade, entre nós, do parnasianismo (FABRIS : 1990, p. 67-80). Aliás, importante apontar, neste ínterim, que, para Martins, no que diz respeito ao programa apresentado pelo vanguardismo brasileiro na Semana, o que encontrou de fato resistência em parcela considerável imprensa não foram suas propostas efetivas de como trabalhar a Literatura – as quais, a bem da verdade, naquele momento ainda não tinham sido suficientemente, por eles, articuladas. As hostis críticas que receberam se voltavam justamente contra a maneira como se haviam comportado (MARTINS : 1978, p. 16-17).

Conforme Fabris, em se tratando mais propriamente das reflexões que os futuristas estabeleceram acerca da relação entre os intelectuais e a escrita/ e a reflexão, o certo é que em grande parte não chegaram nunca a ser vistas, pelo modernismo brasileiro, com bons olhos. Afirma esta autora, primeiramente, que, no Brasil, desde as primeiras leituras os manifestos do futurismo teriam sido encarados com desconfiança, pela glorificação do militarismo patriótico que pontuavam; essa rejeição se tornou, aqui, mais clara, com o passar dos anos – com a cada vez mais ampla expansão das teorias fascistas, e com a aceitação delas, oficialmente, por Marinetti. Além disso, declara Fabris, Mario e Oswald de Andrade, os dois mais famosos expoentes modernistas, se opuseram sempre de maneira firme ao desejo futurista de que museus e monumentos históricos fossem destruídos – para um e outro dos acima referidos Literatos, de maneira diversa, segundo a dita pesquisadora (e como veremos mais pormenorizadamente no próximo capítulo), a nação brasileira deveria aprender a trabalhar sua memória, e não negá-la.

No Brasil, além disso, diz Fabris, por ter muitos dos expoentes considerados mais significativos do modernismo vindo a defender a necessidade de, para escrever poesia e prosa, partir da realidade local – a qual incluía elementos que podiam não estar necessariamente em contato com a modernização – a literatura de vanguarda revelou um quadro de referências não apenas inovador, disposto a ser atual, mas também mais complexo, e mais democrático (FABRIS: 1990, passim).

Discursavam, assim, de maneira inovadora e autêntica, críticos não apenas ao parnasianismo, mas também de outros dois pontos de vista que haviam prevalecido, entre a intelectualidade brasileira, nos oitocentos: o tom elogioso e acrítico de muitos expoentes do romantismo brasileiro, e as teses biologicistas condenatórias, características do positivismo.

Aqui podemos lembrar que enfrentaram adversários comuns àqueles enfrentados pela vanguarda mexicana, mas diferentemente do caso estridentista, não se voltaram contra o simbolismo/modernismo hispânico – muitos dos participantes da Semana, tal como Manuel Bandeira, por muito tempo se consideraram e foram considerados simbolistas. Isso não quer dizer, entretanto, que nossos vanguardistas estiveram mais próximos dos pontos de vista apresentados pelos poetas do México denominados contemporâneos; como vimos no sub-capítulo anterior, estes últimos foram críticos no que diz respeito ao modelo arraigado de engajamento-militante por parte dos intelectuais, e não abraçaram tão prontamente o tema do “nacionalismo”; e pelo menos a princípio inúmeros daqueles primeiros se mostraram afeitos a este “esquema” comportamental.

Segundo Wilson Martins, a compreensão hoje generalizada acerca da importância história da Semana não ocorreu de maneira imediata. Um dos mais importantes periódicos dedicados à Arte e à Literatura desde 1916, a Revista do Brasil, não chegou a registrar, pelo menos até o ano de 1923, qualquer esforço vanguardista ocorrido na cidade de São Paulo (MARTINS: 1978, p. 289).

Pode-se dizer que, verdadeiramente, tal movimento apenas começou a tomar corpo – um número maior de adeptos e críticos favoráveis, assim como um instrumental teórico e um cardápio de proposições mais amplo – quando ganhou espaço na imprensa, através da criação de periódicos por parte de seus próprios integrantes.

A hoje denominada primeira revista modernista é Klaxon, cujo número inicial trouxe um editorial que apontava as principais diretrizes das quais ali se partia para seleção dos textos a serem publicados. Seus redatores declaravam, assim: (1) a preocupação com o atual; (2) com o internacionalismo; (3) com o nacionalismo; (4) com o lirismo; (5) com o progresso; (6) com a tradição (BELLUZZO: 1990, p. 250).

Aqui podemos dizer que Sérgio participou ativamente de Klaxon, e ainda que, após o fechamento desta, no ano de 1924 – juntamente com Prudente de Morais Neto e com o já citado Graça Aranha – passou a publicar um novo periódico associado ao “modernismo”, Estética. Também julgo ser interessante lembrar, por ora, que Raízes... teve alguns de seus trechos (os quais comporiam o capítulo O homem cordial) publicados sob o título de Corpo e alma do Brasil, no periódico também rotulado modernista, de nome Espelho, em março de 1935, um ano antes de sua edição no dito Livro (BERTOLLI, s/d).

Entretanto, com o passar do tempo ficava evidente também que o grupo modernista – que na Semana desejara apresentar-se como caracterizado por uma certa homogeneidade – ia revelando mais e mais conflitos internos (GOMES: 2004). Um ano após tal evento, muitos de seus principais expoentes viajaram para a Europa e para os Estados Unidos; mesmo tendo permanecido no estrangeiro durante não muito tempo, quando retornaram estavam todos mudados, e o Brasil também parecia estar um tanto diferente, exigindo uma postura mais “racional” de sua intelectualidade (MARTINS: 1978, p. 297). Importante, então, destacar que, poucos meses após chegar de Paris, em 1924, Oswald – com um arcabouço consideravelmente maior de propostas estéticas, esboçadas no Manifesto Pau-brasil, mas significativamente menos crítico em relação a alguns dos representantes então mais ilustres da literatura nacional –, romperia com o velho Graça Aranha, devido a um discurso anti-academicista e anti-Pau-Brasil, proferido por este último, na Academia Brasileira de Letras.

No discurso de Graça Aranha constavam as seguintes palavras:

os escritores que no Brasil procuram dar de nossa vida a impressão de selvageria, de embrutecimento, de paralisia espiritual, são pedantes, são pedantes literários. (...) O primitivismo dos intelectuais é um ato de vontade, um artifício como o arcadismo dos acadêmicos (Idem, p. 317).

E contra as palavras de G. Aranha, Oswald teria pontuou: “não faço questão de continuar entre os Espalha-Brasas ilustres, onde a generosidade tradicional do conferencista me colocou (sic)” (Idem, p. 318).

Em 1925 Mario também rompeu com Graça Aranha, num ensaio intitulado A escrava que não é Isaura, que revelava claras intenções de crítica a um livro há pouco publicado pelo referido colega de Semana, O espírito moderno (Idem, p. 352). Cito um trecho:

Ainda não vi sublinhado com bastante descaramento e sinceridade esse caráter primitivista de nossa época artística. Somos na realidade uns primitivos. E como todos os primitivos realistas e estilizadores. A realização sincera da matéria afetiva e do subconsciente é nosso realismo. Pela imaginação deformadora e sintética somos estilizadores. O problema é juntar num todo equilibrado essas tendências contraditórias. Contradigo-me. Erro. Firo-me. Tombo. Morrerei? É coisa que não me preocupa nem perturba. Em todos os períodos construtivos é assim (CANDIDO & CASTELLO: 1974, p. 87-88).

Pode-se propor ainda que, a partir de fins da década de 1920, surgiu uma preocupação maior com aspectos relativos à história do país, assim como com a possibilidade de atrelar literatura a um certo engajamento – o qual podia implicar na associação a movimentos de esquerda e de direita, e também em cargos burocráticos do Estado varguista; mais tarde, temos ainda a tentativa de “academização” por vários expoentes. Isso esteve ligado (e pode explicar) à dissolução do grupo vanguardista brasileiro, de meados dos anos 1920 a diante, em diversos outros grupos (MARTINS: 1978, p. 375, 377, 395). No ano de 1927, o antigo colaborador da Revista de Antropofagia, Alcântara Machado, declarava, em entrevista a O jornal:

Antigamente era a frente única. Pancada nos inimigos. Agora é a discórdia. Pancada nos companheiros. A preocupação de saber quem é que está certo. Ou o que é mais gostoso: quem é que está errado. Crítica e mais crítica. E principalmente a preocupação (idiota como já me disse Paulo Prado) de querer saber quem é de fato brasileiro da gema. A toda hora surge um cavalheiro com a mão no peito: eu sou auriverde de verdade! (BORGES PINTO: 2001, p. 452)

Em 1924, com seu Manifesto Pau-brasil, Oswald já havia aglutinado a favor de si intelectuais brasileiros. Em 1928, ao lançar o Manifesto Antropófago e a Revista de Antropofagia, radicalizou em grande parte sua referência ao primitivismo, ganhando novos companheiros de perspectiva, mas, também, acirrando os ânimos críticos em relação ao seu papel enquanto literato. Alguns anos mais tarde, romperá, por exemplo, com um de seus maiores amigos, Mário de Andrade.

Segundo Ângela de Castro Gomes, contudo, as diferenças de perspectiva que vieram a causar a ruptura do grupo modernista já existiam, entre seus representantes, antes mesmo da organização da Semana. Os literatos ao qual a referida historiadora se dedicou a analisar no artigo Os intelectuais cariocas: o modernismo e o nacionalismo, por exemplo, ligados à revista Festa, criada no ano de 1927, atuariam mais ou menos juntos desde 1919, em diversos periódicos divulgados na então capital do país, tais como América Latina, Árvore nova, Terra de sol – seriam eles: Tasso da Silveira, Andrade Muricy e Murilo Araújo (GOMES: 2004, p. 90).

Conforme Gomes, foi comum os modernistas de São Paulo tentarem fazer crer que Festa era descendente direta do vanguardismo da Semana da Arte Moderna; entretanto, muitas de suas características mais importantes os opõem frontalmente ao projeto intelectual de que dispunha o grupo Pau-brasil/Antrofagia.

Nas palavras do renomado crítico literário brasileiro Antônio Cândido, diferentemente do discurso que é comum se atribuir aos organizadores da Semana, os responsáveis por Festa “propugnaram uma orientação moderna sem radicalismo, o abandono do pitoresco e [se voltaram a] o cultivo dos temas e valores universais” (Idem, p. 99). Podemos destacar ainda, com Gomes, sua relação com o simbolismo.

Estavam, porém, como seus companheiros de empreitada, interessados (sim) nos temas que preocupavam todo brasileiro daquela conjuntura, dentre os quais (obviamente) encontravam-se os intelectuais ligados aos manifestos Pau-brasil e Antropófago: a modernidade, a democracia, a brasilidade. Portanto, ainda que, diferentemente destes, aqueles podem não ter pregado uma alteração brusca no status quo como nas concepções estéticas predominantes em nosso país, nem tomado o trabalho com a noção de “brasilidade” como indispensável, é inegável que ansiaram e estiveram atentos às mudanças que desejavam que ocorressem e que já ocorriam no Brasil de então (Idem, p. 92-93).

É o que revela o poema Intróito, de Tasso da Silveira, publicado em seu livro Definição do modernismo brasileiro, no ano de 1932, que transcrevo (em partes) a seguir. Nota-se, nele, a tentativa de demonstrar que a Literatura teria papel fundamental como guia e suporte para todo tipo de mudança sócio-política que a nação brasileira ia vivenciando e deveria vivenciar, mas também que a idéia de “renovação” não era específica daquelas primeiras décadas do século XX, e que, conseqüentemente, o homem de “hoje” não deveria deixar de perceber “a realidade total” (“profundidade”, “infinitude”, o ontem faz parte do agora). Conforme as palavras de Silveira, além disso, todo Poeta não é apenas feito de instinto/agressividade (1), mas também de conhecimento/ erudição (2) – afirmação esta que corresponde a um tipo bastante específico de modelo comportamental para a intelectualidade, por um lado distinto do pregado pelos antropófagos, e por outro lado distinto do compartilhado pelos parnasianos. Cito os seguintes versos, nos quais não se observa preocupação com a rima, e se nota um certo tom exortatório, bem típico de vanguardas de todo o mundo:

Nós temos uma visão clara desta hora.

Sabemos que é de tumulto e de incerteza.
E de confusão de valores.

E de vitória do arrivismo.
E de graves ameaças para o homem.

Mas sabemos, também, que não é esta a primeira
hora de agonia e inquietude que a humanidade vive. (...)

A arte é sempre a primeira que fala para anunciar o que virá.
E a arte deste momento é um canto de alegria,
uma reiniciação na esperança,
uma promessa de esplendor.

Passou a profundo desconsolo romântico.
Passou o estéril ceticismo parnasiano.
Passou a angústia das incertezas simbolistas.

O artista canta agora a realidade total:
a do corpo (1) e a do espírito (2), a da natureza (1) e a do sonho (2),
a do homem (1) e a de Deus (2),

canta-a, porém, porque a percebe e compreende
em toda a sua múltipla beleza,
em sua profundidade e infinitude.

E por isto o seu canto
é feito de inteligência (2) e instinto (1)
(porque também deve ser total)
é feito de ritmos livres
elásticos e ágeis como músculos de atletas
velozes e altos como sutilíssimos pensamentos (2)
e sobretudo palpitantes
do triunfo interior
que nasce das adivinhações maravilhosas (1)...

O artista voltou a ter os olhos adolescentes
e encantou-se novamente com a Vida:

todos os homens o acompanharão! (Revista Agulha)

Interessante abordar ainda, tal como a pesquisadora brasileira Mônica Pimenta Velloso, o grupo de intelectuais ligados ao modernismo que passa, a partir de 1926, a ser denominado Verde-amarelo, e a partir de 1929, Anta. Há que se notar aqui, antes de mais, que esses literatos, tal como os de Festa, já atuavam e estavam em contato desde fins da década de 1910 e início da de 1920, no Correio Paulistano como na revista Brasilea – estou falando principalmente de Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, e Plínio Salgado. Importante destacar também que, em 1930, muitos destes passarão a compor o grupo político reacionário denominado integralista (VELLOSO: 1993, p. 05).

Conforme Velloso, em fins da década de 1920 os verde-amarelistas passaram a se identificar e ser identificados enquanto conjunto mais coeso justamente através da oposição que fizeram aos dois outros grupos modernistas anteriormente citados. Em relação em particular ao Pau-Brasil/Antropófago, pode-se dizer, conforme esta autora, que foram críticos na medida em que se posicionaram contra um suposto cosmopolismo/urbanidade; valorizaram, na contra-mão, o universo do “campo” e, propuseram uma abordagem focada no “bandeirante”/“caipira”, apresentando-o como o verdadeiro “herói” da nação. Além do mais, diz Veloso, diferentemente de Mário, que viajou o Brasil em busca de elementos que (atrelados à condição de modernidade) pudessem ser percebidos como constituintes de nossa identidade nacional, o grupo denominado Verde-amarelo dedicou-se a apresentar textos que se pautavam na São Paulo rural, para a proposição do elogio (amplo) da brasilidade, e a afirmação da possibilidade de progresso (da nação como um todo). Por fim, outro elemento que diferencia esses literatos é, para a dita historiadores, a maneira como lidaram uns e outros com os fatores “história” e “geografia”: enquanto Oswald e Mário destacavam as mudanças ocorridas ao longo do tempo, na história do país, os verde-amarelistas focavam a “natureza” paulista (flora, fauna e habitantes) como fator-revelador mais claro das possibilidades de, em nosso país como um todo, promovermos desenvolvimento técnico-econômico e justiça social (Idem, 9-12).

Em relação ao grupo Festa, o que se pode dizer, segundo Velloso, é simples: dedicando-se a ufanar o estado de São Paulo, o verde-amarelismo tratou de desqualificar toda a classe de intelectuais oriunda ou que vivia no Rio de Janeiro; chamaram-nos burocratas, corruptos e individualistas, desinteressados nos problemas verdadeiramente nacionais (Idem, 5-6).

O poema cujos trechos transcrevo a seguir é bastante ilustrativo das proposições de Velloso, desde o título até os versos que o compõem. Publicado pela primeira vez em 1928, denominado Brasil-menino, e narrando (em primeira pessoa) a infância de um comissário de café de São Paulo, cujo pai (!) bandeirante teria desaparecido, tal texto se refere ao rio Tietê (aspecto geográfico) como ícone da tradição brasileira, como elemento (histórico) que serviria como a ponte entre o passado e o presente de toda a nação – o imaginário do menino (“meu pai era um gigante”, “partiu (...) no seu dragão de pêlo azul”), o imaginário popular (“Quando veio o Natal, meu pai estava longe (...)/ Eu me lembrei de procurar um par de botas/ das que meu pai usava (...)/ Chegou a manhã, linda como um tesouro!/ e eu fui achar, com o coração aos pulos de alegria,/ as duas botas de couro/ abarrotadas de ouro!/ (...) Minha avó (...) me garantia:/ - Foi papá Noel quem trouxe.”) se misturam com imagens recortadas da cidade brasileira que no início do século XX mais se modernizava e enriquecia (“Minha cidade é este tumulto colorido que aí passa/ levando as fábricas pelas rédeas pretas de fumaça! Barulho fantástico/ de um mundo que saiu da oficina.”). Cito:

O Tietê conta a história dos velhos Gigantes
Que andaram medindo as fronteiras da pátria,
Ao tempo em que S. Paulo coloca os sapatões atrás da porta
e os sapatões amanhecem cheios de outro...
E os sapatões amanhecem cheios de esmeraldas...
E os sapatões amanhecem cheios de diamantes... (Apostilas)

Fundamental aqui lembrar, pois, que Sérgio rompeu oficialmente com o “todo” modernista, no ano de 1927. Simbolicamente, então, distribui todos os seus livros de literatura e crítica literária – demonstrando a descrença na possibilidade de que a Poesia e a Prosa vanguardistas, àquela maneira, pudessem cumprir com o projeto de transformação social – e partiu para o Espírito Santo, para uma cidadezinha pequena, onde foi encarregado do jornal O progresso.

Entretanto, penso que a experiência do modernismo marcou, sim, indelevelmente, Seu comportamento enquanto intelectual, mesmo após muitos anos. Creio não ser demasiadamente ousado propor, além do mais, que o rompimento com o grupo modernista está ligado ao fato de que o dito Autor, em Raízes..., desacredita qualquer possibilidade de que projetos de ou para intelectuais venham a constituir, no Brasil, uma saída para o desenvolvimento e a democratização. Veremos, mais adiante, no próximo capítulo, quais as possíveis implicações teóricas, no referido texto de Sérgio, do fato dEle ter-se contraposto a concepções formuladas por Oswald e Mário.

Importante ressaltar, enfim, que, no estado de Pernambuco, havia um movimento literário que – apesar de também defender a modernização da Poesia e da Prosa do Brasil, à luz das problemáticas da democracia e do nacionalismo – nasceu rompendo com o modernismo da Semana, através da Revista do Norte (MARTINS: 1978, p. 294). Protestando contra a “cultura urbana e ocidentalizada” da qual argumentavam dispor o estado do Sudeste, os escritores ligados a este periódico defendiam um foco maior naquilo que para eles representaria a verdadeira alma brasileira: a região Nordeste do país, sua história, suas complexidades sociais, seus habitantes, suas produções culturais. Em torno da referida publicação, pois, formaram um importante grupo de intelectuais que, no ano de 1926, foi responsável pela redação e divulgação do Manifesto regionalista do Nordeste – Gilberto Freyre pode ser considerado seu mais célebre expoente (VELLOSO: 1993, p. 08).

 

4. A Literatura modernista: foco na diversidade/
paridade de temáticas e linguagens

Um dos nomes mais expressivos do modernismo brasileiro é o de Oswald de Andrade; neste capítulo, por isso, inicialmente, me dedicarei a analisar seus dois manifestos vanguardistas, e alguns de seus poemas. Depois, apresentarei uma síntese de conceitos trabalhados em alguns versos e no mais célebre livro de outro importante organizador da Semana da Arte ModernaMário de Andrade. Por fim, remeterei a perspectivas que constariam na produção de dois outros literatos considerados modernistas, que lançaram textos nas mais diversas revistas ligadas ao movimento, mas que apresentam uma trajetória bastante particular: estou falando de Manuel Bandeira, que iniciou sua formação intelectual entre os simbolistas, e de Carlos Drummond de Andrade, que começou a escrever e publicar quando o vanguardismo já tinha conquistado, em nosso país, um espaço considerável. Meu objetivo é, pois, em seguida, traçar possíveis diálogos entre estes seus textos e um dos meus dois objetos privilegiados de análise: Raízes..., de Sérgio Buarque.

O primeiro livro de poemas de Oswald, Pau-brasil, surge, em 1924, remetendo a um manifesto homônimo, que ele próprio lançara meses antes, no Correio da Manha, e depois na Revista do Brasil. O tal manifesto, aliás, aparece (com algumas modificações) no corpo da dita obra, como uma espécie de Prefácio, ao qual dá-se o nome de Falação. Em minha análise, contudo, tomo seu texto primeiro (mais amplo).

Em todos os poemas de Pau-brasil nota-se a preocupação de desconstruir a então predominante fôrma acadêmica (atrasada e elitista) da poesia nacional: Oswald quer, ali, atualizar e ao mesmo tempo democratizar as possibilidades de se compor versos no Brasil de sua época. Assim, percebemos nesses textos o impulso por se expressar, pela escrita, a realidade modernizada e modernizante à volta, em flashes confusos, rompantes, caleidoscópios, descontinuidades, polifonias; e por se, paralelamente, fazer uso abusivo de vocabulário dito vulgar/coloquial, oral, cotidiano.

Fundamental ter-se em mente também que tanto no referido manifesto como no referido livro de poemas Oswald (embora, por ingenuidade, isso possa ser suposto) não abre mão do uso de expressões arcaicas, lugares-comuns, estrangeirismos, e citações as mais diversas – quer dizer, não foge completamente da maneira de composição dos intelectuais brasileiros mais consagrados na virada dos 1800 para os 1900. Afinal de contas, se ele buscava a “contribuição milionária de todos os erros”, não podia se negar ao fato de que também este ajudava a compor o jeito de falar e ser no Brasil de inícios do século XX.

Creio ser, então, importante ressaltar que essa visão crítica do referido autor no que diz respeito às limitações e orientações tradicionalmente impostas à língua portuguesa escrita, em nosso país, ainda que contundente, é marcadamente descontraída. Essa revolta irreverente contra o cânone, julgado desatualizado e deslocado da múltipla realidade brasileira de então, perpassa, de uma forma ou de outra, qualquer dos textos incluídos em Pau-brasil, embora apareça de maneira mais explícita no seguinte, que aqui cito a título de ilustração: “Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ Do professor e do aluno/ E do mulato sabido/ Mas o bom negro e o bom branco/ Da Nação Brasileira/ Dizem todos os dias/ Deixa disso camarada/ Me dá um cigarro.” Gilberto Mendonça Teles chama esta forma de brincar com as palavras e rir do jeito com que são usadas de “carnavalização” (TELES: 2000, p. 6). Vera Maria Chalmers chama de “humor vingativo” (CHALMERS: 2002, p. 105).

É preciso lembrar-se, então, que as contestações de Oswald não se voltavam apenas, pura e simplesmente, à Academia e suas idéias específicas, e sim à elitização que implicava o monopólio, por parte desta (ou de qualquer outra instituição que fosse), das decisões acerca do que deveria ser considerado “bom” e “belo” epistemologicamente e literariamente falando. Isso implica, pois, em uma visão crítica, sua, não somente à não-inclusão de um ou outro novo grupo de escritores nos velhos cânones (na contra-mão do “bacharelismo” aristocrático), mas também a defesa do direito de todo cidadão brasileiro ser contemplado pela e através da Literatura nacional (na contra-mão do modo de vida burguês, ícone da modernidade capitalista, que, no Brasil, atrelou-se a comportamentos tidos como característicos das oligarquias).

Acerca dos pensadores e pesquisadores brasileiros, o manifesto lembra em muito os textos de Sérgio e Barreto contrapostos no  segundo capítulo, ao sublinhar (1) o apego aos clichês arraigados, aos lugares-comuns mais difundidos, ao falar bonito que não necessariamente corresponde ao apresentar idéias interessantes, significativas; (2) a comum valorização, de certa forma “mística”, do intelectual-bacharel, detentor de um vocabulário, de conhecimentos e de um estilo de vida distanciado, percebido pelos demais cidadãos como quase incompreensível. Além disso, tem-se que Oswald também parecia entender que tais características remeteriam à presença portuguesa em nossa formação histórico-cultural.

O lado doutor, o lado das citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. (...) A riqueza dos bailes e das frases feitas. (...) Falar difícil.

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. (...) Eruditamos tudo (BELLUZZO, 1990, p. 257).

Por outro lado, há que se fazer notar que já em Pau-brasil destacam-se algumas alterações processadas, naqueles últimos anos, na realidade dos letrados de nosso país: os novos tempos pareciam estar impondo, com a complexificação do mundo, aos interessados pelas Humanidades, a necessidade de se especializarem em campos de análise mais ou menos restritos, o que, aos olhos de Oswald, haveria de implicar em outras, maiores, transformações.

Mas houve um estouro dos arrependimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram. A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, crítica, donas-de-casa tratando de cozinha (BELLUZZO, 1990, p. 257).

Mais particularmente acerca das Artes e da Literatura, o manifesto ressalta as novidades impostas pelo desenvolvimento e democratização das técnicas, que por enquanto vinham sendo adequadas a modos de vida tradicionais, mas que pareciam lhe soar como promissores veículos de transformação social.

Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadro de carneiros que não fosse lã mesmo não prestava. (...) Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotográfico.

Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. (...) A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas. Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano (Idem, p. 258-259).

Ressaltemos, por ora, também a preocupação de Oswald em defender a necessidade de a Literatura se voltar para a “atualidade”. Neste sentido, se nos ativermos ao texto do dito manifesto, podemos citar, por exemplo, sua famosa frase introdutória, “A poesia existe nos fatos” (Idem, p. 257). E outras: “A poesia Pau-brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente” (Idem, p. 260); “Uma nova escala. (...) E as novas forma da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros. Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tiques de fios e ondas fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos” (Idem, p. 260).

No que diz respeito às apreciações de Oswald contidas nos poemas de Pau-brasil, no que tange à nova realidade brasileira de inícios do século XX, interessante seria citar o seguinte, intitulado Fim e começo: “A noite caiu sem licença da Câmara/ Se a noite não caísse/ Que seria dos lampiões?”. Antes de mais, há que se destacar a relevância do próprio título do poema, que (bem ao gosto vanguardista) demarca a conclusão de um processo, e a necessidade de se iniciar um novo, diferente; bom lembrar, aqui, que, embora útil, a “noite” surge, conforme o Poeta, no referido texto, sem avisos e sem permissão oficial... foge ao controle humano – tal como a modernidade, nas seguintes palavras do manifesto “as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos”. Além disso, pode-se propor que, nestes versos, inverte-se, ironicamente, a relação de “utilidade” entre os dois elementos abordados: os “lampiões” não mais são importantes porque “o dia escurece”; o dia é que escurece para que os lampiões possam se acender – no universo urbano a luz é artificial, e, para o homem que vive na cidade, essa artificialidade se revela condição fundamental; também a “técnica” o seria, como sabemos, com o advento da eletricidade.

Entretanto, conforme o professor Carlos Sepúlveda, dispondo de tais projetos estéticos e conceptuais, Oswald desejava ser visto não apenas como um literato que prezava pelo “novo”, mas um intelectual que propunha poemas/romances de fato transformadores, em nosso país (SEPÚLVEDA: 2000, p. 9-15). E para que suas produções e proposições tivessem implicações reais na alteração do sistema (cultural/acadêmico e também sócio-econômico), de acordo com o modo de entender deste que é um dos nossos mais célebres escritores, não bastaria voltarmo-nos para os acontecimentos recentes – nas palavras do próprio modernista: “O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura (...). Realizada esta etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época” (BELLUZZO: 1990, p. 261).

Seria, logo, necessário repensar as mais remotas experiências nacionais, relacionando passado e presente não da maneira convencional, estanque, mas fluida e complexamente. Para Sepúlveda, Oswald acabava, assim, em sua obra, por priorizar as mudanças ocorridas ao longo da história brasileira e também seus aspectos sócio-culturais, vindo a demonstrar que nossas mazelas mais complexas não seriam imutáveis, pelo simples fato de que não são de ordem “natural” (SEPÚLVEDA: 2000, passim).

De maneira semelhante, segundo as palavras de Vera Lúcia Follain de Figueiredo, na escrita e no pensamento deste autor “a origem [do Brasil] não se confunde com o lugar da essência pura da nacionalidade” (FIGUEIREDO: 2000, p. 90).  Muito pelo contrário, o cuidado de Oswald com o tema dos “descobrimentos” e da feitorização de nosso território pelos portugueses encobre, no entender de Follain, justamente o desejo de se reescrever as mais correntes apreciações acerca de alguns dos mais importantes pilares sustentadores da identidade comum, brasileira: os mitos fundadores. No poema-piada Erro de português, por exemplo, o significado da colonização lusa é reavaliado, e a possibilidade de que a cultura dos indígenas nos pudesse ter legado pontos de vista comportamentais e morais mais construtivos, vislumbrada: “Quando o português chegou/ Debaixo de uma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despido/ O português.” (Revista Agulha)

Remetendo à nossa antiga condição de colônia de Portugal, creio ainda, com Benedito Nunes, que o próprio uso do termo “pau-brasil” para designar os referidos manifesto e livro de poemas vem reafirmar a idéia de que o Brasil tem assumido sempre (submisso) a posição de fornecedor de matérias-primas e comprador de manufaturados ao mercado internacional; mas, além disso, vem pontuar, por outro lado, a feliz possibilidade de deixarmos de fornecer exotismos ao conjunto que se convém chamar “literatura universal”, e comprar de fora modelos prontos de composição; de passarmos a apresentar nossa poesia “autêntica”, como produto seguramente vendável, no mercado internacional. Daí as seguintes frases, que constam apenas na primeira versão do referido manifesto: “Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E Poesia Pau-brasil, de exportação” (BELLUZZO, 1990, p. 258).

Em seu segundo manifesto lançado, de nome Manifesto Antropófago, Oswald retoma a estrutura de linguagem do manifesto anterior, e também a crítica à burguesia, aos acadêmicos/bacharéis, e ao controle por parte deles no que diz respeito ao que se deve considerar interessante para o ler e o escrever, no Brasil – tanto nas reflexões conceituais-formais, quanto em pesquisas historiográficas, e ainda na Literatura. Entretanto, ali se delimita com maior precisão razões pelas quais o dito autor condenaria os modos tecnicista/doutor de percepção do mundo: o motivo principal de voltar-se contra eles é o fato de que buscam sempre a adaptação a modelos estrangeiros (de pensar, estudar e compor versos e romances), concebendo, no final das contas, sempre embustes, homogeneização e continuidades.

Fugindo, destarte, destas percepções europeizantes do e sobre o Brasil, o Manifesto Antropófago revela um olhar mais amplo acerca dos elementos que comporiam o modo de vida e pensamento do brasileiro até inícios do século XX. Neste texto, aparecem, pois, referências à civilização européia (caracterizada como, católica ou protestante, sempre moralizadora, castradora, hipócrita), e, de outro lado, à civilização brasileira (que mesclaria os elementos da outra à liberdade e à criatividade tipicamente indígenas). No que tange à primeira, o referido autor se rebela:

Contra (...) as idéias objectivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dymamico. O individuo victima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. (...) E o esquecimento das conquistas interiores. (...) [Pois] só há determinismos – onde não há mistério. Mas que temos nós com isso? (Idem, p.269-270)

Pode-se dizer, então, que ao primeiro fator (“europeu”) constituinte do povo brasileiro não chega a ser encarado com os olhos mais condescendentes; afirma ele, em célebre passagem: “antes do português descobrir o Brasil; o Brasil tinha descoberto a felicidade” (CANDIDO & CASTELLO: 1974, p. 71).  O que implica no fato de que nossas características mais positivas, aos olhos de Oswald, remeteriam principalmente e mais propriamente ao legado do nativo americano –eis desnudado, pois, aquilo que os críticos (de ontem e de hoje) atentos à obra do referido escritor chamaram e chamam de “primitivismo”.

Por isso, quando se remete ao híbrido modelo civilizacional parágrafos acima citado – o brasileiro (rico, pobre, culto ou iletrado) –, este poeta propõe que a colonização e os então patentes contatos com outras nações não foram e são efetivados de maneira que nós, cá, assumimos sempre e incondicionalmente uma postura passiva. Conforme eles, de forma diversa, vantajosamente “nunca fomos cathechisados. Vivemos atravez de um direito sonâmbulo. Fizemos [livres] Christo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. (...) Fizemos [criativos] o carnaval. O índio vestido de senador do império. (...) Ou figurando nas operas de Alencar cheio de bons sentimentos portuguezes” (Idem, p. 269-270). Quando debate mais diretamente acerca da nossa maneira de fazer Filosofia, História, Poesia e Romance também afirma: “nunca tivemos grammaticas, nem collecções de velhos vegetais” (Idem, p. 270); “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós” (Idem, p. 269); “não tivemos especulação, mas tínhamos adivinhação” (Idem, p. 271).

Essa relevância cultural indígena não apareceria, contudo, ao ver do dito autor, como evidentes apenas entre nós, que hoje vivemos no mesmo canto do continente americano. A maneira do índio ser (“Já tinhamos o comunismo”) e pensar (“Já tinhamos a língua surrealista.”) poderia ser, conforme ele, verificada, implícita ou explicitamente, nos movimentos que em território europeu mais teriam representado alterações significativas – “Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista.” Declarava, assim, Oswald, convicto: “Sem nós a Europa não teria siquer a sua pobre declaração dos direitos do homem” (BELLUZZO: 1990, p. 270)

Isto posto, aos seus olhos, o que seria, pois, mais característico em específico da nossa brasilidade? Conforme Oswald, era justamente este diálogo do índio com o europeu, ou de todos os cidadãos do Brasil daquele período com quem quer que fosse, visando benefício próprio, e efetuado sem limites e sem normas. De acordo com Ulrich Fleischmann e Zinka Ziebell-Wendt, no dito manifesto “a suposta sujeição transfigura-se, observando-se mais detidamente, em um jogo sofisticado, no qual o algoz, o colonizador [ou a potência capitalista atual], sem dar-se conta, se transforma em vítima (!) do colonizado” (FLEISCHMANN & ZIEBEL-WENDT: 2002, p. 100). É por isso, aliás, que o uso da metáfora da antropofagia (devorar o Outro, para dele assimilar as forças – raciais, morais, intelectuais, comportamentais) surge, quando em referência ao Brasil, diretamente ligado à apresentação do postulado “a transformação permanente do tabu em totem” (= o cultuar, sem recalques, tudo aquilo que se julga aprioristicamente diferente, inusitado ou não-permitido) (BELLUZZO, 1990, p. 269).

Fundamental destacar, por fim, que a própria escolha do termo escolhido para o título é significativa, neste manifesto: ao atribuir valor positivo ao ritual antropofágico, Oswald inverte o juízo-comum acerca dele, apresentando, como em Pau-brasil, uma reavaliação de nossa história nacional, por meio do uso descontraído da linguagem (ALMEIDA: 2002, p. 125). No Manifesto Antropófago, porém, como vim demonstrando nestas últimas páginas, podemos dizer que Oswald apresenta reflexões conceituais mais profundas do que aquelas apresentadas em seu primeiro manifesto, chegando a determinar melhor que tipo de contribuições deveríamos nós brasileiros legar à humanidade como um todo:  (1) nossa percepção mais complexa, dialógica e includente da vida como das Ciências e da Literatura; (2) o entendimento de que nosso modo de portar e pensar, trabalhar e produzir conhecimento, no Brasil, está (inevitavelmente) impregnado pela cultura indígena, e (3) a vontade de que remetamos a ela e a tantas outras quanto forem necessárias, adaptando-as à vida contemporânea, e visando a concepção de um mundo mais rico e justo – “Socialmente. Economicamente. Philosophicamente” (Idem, p. 122 & BELLUZZO, 1990, p. 268). Para ser mais clara, posso recorrer às palavras de Benetido Nunes: conforme o raciocínio de Oswald de Andrade, no dito texto, “a antropofagia é a um tempo metáfora (1), diagnóstico (2) e terapêutica (3)(NUNES: 1995, p. 15).

Isso quer dizer, então, que Oswald passa de uma crítica à sociedade e aos intelectuais da época e à maneira como aqueles percebiam o passado da nação... para delimitar possíveis características consideradas correntemente como negativas, mas que, no final das contas, poderiam bem ser percebidas de outras formas, e usadas de maneira vantajosa. E é assim que ele ajuda a representar todo um novo modelo de intelectualidade que exerce seu dever cívico não apenas através da participação na burocracia estatal, em partidos políticos, ou em assembléias de grupos esquerdistas, mas que se revela (mesmo que, no caso dele, em particular, por exemplo, não tão conscientemente) preocupado com a crítica das maneiras como as verdades e as identidades se constroem conforme e de acordo com interesses políticos – que podem corresponder a um círculo delimitado de indivíduos, ou, mais proveitosamente bem poderiam corresponder (este é o projeto de Oswald) a toda a coletividade.

Bom lembrar, acerca de Oswald, que, quando em 1930 declara oficialmente a adoção dos postulados de Karl Marx, chega a perceber em sua teoria antropófaga argumentos semelhantes aos utilizados pelo nazismo, e a renega; “considerou que aquela concepção, favorável ao ímpeto de todas as revoluções generosas, poderia também justificar o canibalismo político de Hitler.”

Anos mais tarde, contudo, este autor se revelará um grande interessado em defender, já liberto do marxismo ortodoxo e agora crítico do stalinismo, uma abordagem mais ampla para as questões filosóficas; retoma o foco no modo de vida indígena, mas, ainda que recupere a metáfora da antropofagia, será a idéia de “matriarcado de Pindorama” (também no mesmo manifesto contida) que irá permitir novos vôos, agora especialmente voltados à deslegitimação do papel do Estado, capitalista ou proletário.[1] É assim que, já em meados do século XX, Oswald escreverá textos tais como Um aspecto antropofágico da cultura brasileira: o homem cordial (1950) – um ensaio no qual se parte do conceito apresentado por Sérgio, em Raízes... para a formulação filosófica utópica, bastante excêntrica.

Quanto a Mário de Andrade, pode-se dizer que é apenas por sua segunda obra publicada que veio a ser reconhecido como propriamente vanguardista. Em primeiro lugar, porque já tinha vivenciado a experiência da Semana da Arte Moderna, e, em segundo lugar, porque Paulicéia desvairada, de 1922, voltando-se mais especificamente a seu local de origem, a capital do estado de São Paulo, incorporará de maneira explícita as referências à temática da cidade moderna, e discutirá o que haveria de característico dela.

Menos influenciado, porém, pela exortação da técnica feita por Marinetti, do que pela obra intimista do belga Émile Verhaeren, Villes Tentaculaires, a abordagem do espaço, nos poemas de seu referido livro, deve ser considerada original, na medida em que nos vem apresentar um ponto de vista que vai da contemplação amorosa a uma tristeza desconfortável, expressas no recorrente uso da palavra “arlequinal”, e ainda na gorda pontuação de que faz uso. Mário focava, assim, as multiplicidades, as ambigüidades e as polifonias características de sua terra natal, nas primeiras décadas do século XX. Bastante ilustrativas de tais aspectos são as Paisagens, dentre as quais destaco os seguintes trechos:

Faz frio, muito frio...
(...)
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.

(...)

Meu coração sente-se muito triste...
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento...

Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!

E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca... (Horizonte)

Para Maria Inês Machado Borges Pinto:

 Na sua Paulicéia desvairada muitos dos (...) poemas primavam pela ironia, ora fina, ora beirando o sarcasmo, com a qual fustigava algumas das mais torpes fontes do mal-estar endêmico e ar enfermiço da cidade com seus batalhões desempregados e semi-ocupados. Na cidade de São Paulo, o quanto se tornava mais chocante, visto que a miséria geral da população contrastava de forma mais constrangedora com os símbolos da modernidade e riqueza: avenidas remodeladas, automóveis, palacetes, a ganância do dinheiro, o aventureirismo e o cinismo dos processos para se obter bens materiais (BORGES PINTO: 2001, p. 447).

A figura do burguês, tão típica do ambiente urbano, não deixava de aparecer nas reflexões de Mário, em Paulicéia. No famoso poema de título duvidoso, Ode [!] ao burguês, por exemplo, o referido autor critica tais elementos da São Paulo modernizada, por seu comportamento capitalista mesquinho e, ao mesmo tempo, ultrapassado – de maneira semelhante a Oswald, insulta o “burguês-níquel” que é também expressão das “aristocracias cautelosas”.

Ódio aos temperamentos regulares!
(...)
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu ranço inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
(...)
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês! (Revista Agulha)

Em Losango cáqui, de 1926, a visão crítica da terra natal de Mário reaparece, com apreciações pormenorizadas acerca das condições materiais do universo urbano, na modernidade.

A vida renasce na manhã bonita
Paulicéia lá embaixo epiderme áspera
Ambarizada pelo Sol vigoroso
Com sangue do trabalho correndo nas veias das ruas.
Fumaça bandeirinha
Torres.
Cheiros.
Barulhos.
E fábricas.
(...)
Os bondes meus amigos íntimos
Que diariamente me acompanham pro trabalho...
Minha casa...
Tudo caiado de novo!
É tão grande a manhã! É tão bom respirar!
É tão gostoso gostar da vida!...
A própria dor é uma felicidade! (Revista Agulha)

Pode-se dizer, pois, que emerge de tais questões – o raro elogio, por Mário, da técnica, seu viés subjetivista, a linguagem multifacetada – a razão explicadora do fato de o referido autor ter-se negado a admitir o rótulo de futurista, conferido por seu amigo Oswald – para ele futurismo corresponderia a um modo (bastante diverso do seu) de abordar o ambiente urbano, pela larga descrição material, objetivista e pontual. Eis suas palavras quanto a isso, apresentadas no Prefácio interessantíssimo, de Paulicéia desvairava:

Não sou futurista. Disse e repito-o. Tenho pontos com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade. (...)

Escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual no que tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Si (sic) estas palavras freqüentam-me o livro não é porque pense com elas escrever moderno, mas porque sendo meu livro moderno, elas têm nele sua razão de ser. (...) Reconheço mais a existência de temas eternos, passíveis de afeiçoar pela modernidade: universo, pátria, amor e a presença-dos-ausentes, ex-gozo-amargo-de-infelizes. (Apostilas)

Aqui faz-se mister dizer que a abordagem feita de São Paulo não fica limitada ao presente em Paulicéia desvairava como em Losango cáqui: a observação de Mário parte muitas vezes do espaço para pensar acerca das tradições, do que ainda existe de “passado” nas ruas e nos locais mais comentados da capital paulista das primeiras décadas dos novecentos – Trianon, Anhangabaú, Largo do Arouche e, é claro, o Tietê:

Era uma vez um rio
(...)
Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo
as monções de ambição...
E as gigantescas vitórias!
As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho...
(...)
Foram-se os ouros! E hoje as turmalinas!...
- Nadador! Vamos partir pela via dum Mato Grosso? (Horizonte)

Como se pode perceber através da leitura deste trecho acima, tal como Oswald, e de maneira distinta dos chamados verde-amarelistas, (já pontuamos) o espaço, a geografia para Mário é ponte através da qual o presente visita o passado, buscando compreensões, e não visando imitá-lo, reproduzi-lo.

É preciso estar-se atento também para o fato de que em 1926 Mário começava a revelar mais sistematicamente, em textos divulgados pela imprensa, o interesse pelo tema da identidade nacional. Em uma crítica – publicada em Terra roxa e outras terras – a uma crítica, feita por Sérgio Milliet, a um livro recém-lançado por Guilherme de Almeida apresentava, logo, as seguintes considerações, marcadas (1) pelo elogio e ao mesmo tempo pela crítica ao paulista, (2) pelo desejo de escrever conforme o gosto (sentimental) do brasileiro genérico, e (3) de para tanto suplantar vaidades e interesses locais, de onde quer que seja:

Sérgio Milliet. Estou ficando o homem das cartas... Porém, a culpa é de você. Que história é essa, Sérgio, meu amigo, de falar, na sua crônica sobre poesia do número passado, que “só se é brasileiro sendo paulista”! Protesto. (...) Em que sentido simbólico heróico grandiloqüente errado você está empregando a palavra “paulista”! Eu não nego um valor enorme sobretudo no passado dos meus coestaduanos, porém carece tomar cuidado com os símbolos e com os sentimentos perniciosos. Como o símbolo, o paulista é também aquela besta reverendíssima da guerra dos Emboabas, ainda por cima arara e covardão... (...)

Você e outros me chamam de sentimental e de romântico porque gosto de gemer no verso e no pinho o amor melado e caricioso do brasileiro e porque grito “Vem minha gente” pros brasileiros sem limites estaduais da nossa terra. Pois me parece, Sérgio, companheiro, que o sentimentalismo não está em gemer, (...) porém em se deixar levar por vaidadinhas rompantes e afirmativas de ser realidade perigosas. Perigosa como a de você que é desnacionalizante e irritante e errada. O Brasil é um vasto hospital. Amarelão de regionalismo e bairrismo histérico. Visão de míope sem futuro e sem presente. Cuidado com o saudosismo! É sintoma de decadência. Sérgio, você errou, Sérgio. Te abraço, Mário de Andrade. (Idem, p. 440-441)

Bom lembrar, aqui, que em 1927 Mário realiza sua primeira viagem “etnográfica”, desta vez pelo Amazonas.[4] Pode-se dizer que, de parte dos conhecimentos então adquiridos, vão surgindo novos e cruciais elementos na poesia deste que é um dos mais respeitados autores da Literatura nacional, mais especificamente no livro no mesmo ano publicado, Clã do jaboti: seus versos agora vão revelando uma maior preocupação em falar do Brasil como um todo, e suas sensações/impressões particulares, de paulista e escritor, passam a ser identificadas às de outros homens, por mais distantes geograficamente e intelectualmente, o que fica bastante evidenciado no seguinte texto:

 

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da Rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido.
Com o livro palerma olhando para mim.

Não é que lembrei, lá no norte, meu Deus! muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro quenem eu... (Revista Agulha)

É hora de reavaliar a tradição de todo o território a que se convém chamar “brasileiro”, como o faz ao conferir ao poema acima o significativo título de Descobrimento (do Brasil?), ou como o faz em O poeta come amendoim, dedicado a Carlos Drummond de Andrade, ao declarar que estava “pensando nos tempos de antes de (...) nascer”. (Cultura em Tópicos)

Nos versos desse último poema, Mário apresenta lugares-comuns da história nacional, tais como a figura de D. Pedro II, a religiosidade, escravatura e sua abolição, a proclamação da República, até a chegada da modernidade, sobre a qual escreve: “Progredir, progredimos um tiquinho/ Que o progresso também é uma fatalidade... Será o que Nosso Senhor quiser!” Por fim apresenta reflexões acerca da propriedade ou não de se amar a nação brasileira, e conclui que sim, não por ter cá nascido (por sua “natureza”, e/ou por mera “circunstancialidade”), mas principalmente (1) por sentir-se elo componente da cadeia de acontecimentos históricos por ele ali naquele texto descrita, (2) por entender que age, julga, produz, é, sente e se comporta como aqui é mais comum, e (3) por saber que é desta terra que retira seu sustento.

Brasil tamanho não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo no meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada.

Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.

Creio ser agora indispensável, pois, partindo dessas apreciações de Mário acerca de sua própria identidade “paulista” (local) e “brasileira” (nacional), nas primeiras décadas do século XX, refletir sobre o significado que este autor confere mais particularmente à sua identidade enquanto intelectual do Brasil dos novecentos. Já de antemão posso propor que os pensadores, pesquisadores e literatos de nossa pátria, conforme seu ponto de vista, não deveriam fechar-se em teorizações intelectualistas acerca do tema então por ele considerado dentre os mais relevantes – o nacionalismo. Nas palavras de Antonio Candido, a produção de Mário revela, assim, “a capacidade de fundir, num movimento único, a pesquisa da alma e a pesquisa de seu país” (CANDIDO & CASTELLO: 1974, p. 85). Isso fica claro, por exemplo, quando, no já citado verso de Descobrimento “com o livro palerma olhando para mim” – ele apresenta a “erudição” enquanto ornamento ocasional do momento em que lhe brota sentimento de identificação com o “outro” brasileiro.

Mas (repito) não descarta a função da intelectualidade.

Daí que a percepção da necessidade de se buscar, no trabalho intelectual, a articulação entre a realidade sofisticada dos freqüentadores das academias, institutos de estudo, editoras e revistas... e a realidade dos mais diversos brasileiros se reverta, em Mário, (1) na percepção de que os pensadores, pesquisadores e literatos, no trabalho como nas relações pessoais cotidianas, tal como os demais cidadãos do país, seriam marcados – historicamente, e das maneiras mais diversas – pelo hibridismo cultural; e (2) na proposição de que assim continuassem atuando, embora o devessem fazer, dali a diante, de maneira mais consciente, sem pesares, clara. Aliás, a forma como ele acreditava que tais concepções marcavam sua forma (particular) de fazer uso da linguagem, fica bastante clara em seu seguinte depoimento:

Não quero imaginar que o meu brasileiro – o estilo que adotei – venha ser o brasileiro de amanhã. Não tenho essa pretensão, juro. Por outro lado, se eu não fizesse essa sistematização eu seria um escritor sentimentalmente popular e quero ser um escritor culto e literário. Não tenho medo destas palavras nem caí na admiração incondicional e sentimental do Oswaldo. O caso é outro. Sou um fenômeno culto, sei disso e não me afasto disso (MARTINS: 1978, p. 357).

Bom destacar, entretanto, que, apesar da declaração acima, através da leitura dos primeiros textos publicados por Mário, é possível se dizer que esse hibridismo tão característico dos brasileiros, no que diz respeito aos escritores nacionais se expressaria de maneira um tanto semelhante à que atribuí a Oswald: através da mescla de dois elementos principais – (1) o europeu, identificado à idéia de “erutido”, “culto” e (2) o propriamente nacional, associado a uma idéia acerca do que seria “popular” que priorizava o “primitivo”, o “índio”. É o que transparece o seguinte poema de Paulicéia desvairada, de nome O trovador, no qual se destacam os termos “alaúde” (instrumento de origem oriental, típico da tradição musical lusitana, renascentista) e “tupi” (tribo indígena das Américas):

Sentimentos em mim asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal.
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde! (Revista Agulha)

Importante destacar que em textos posteriores às suas viagens “etnográficas”, entretanto, como nos de Clã do jaboti, Mário revela uma visão bastante mais rica do tecido cultural da nação, e de si próprio, enquanto dele integrante, no papel de homem letrado. Nos versos de Improviso do Mal da América, por exemplo, diversas são as conclusões que podemos tirar acerca da maneira como as apreciações deste autor, no que tange tais problemáticas, se tornaram mais complexas, com o correr dos anos.

Primeiramente, ele pontua que não apenas aquilo que lhe pertence por direito como brasileiro que é – estereótipos da história nacional, como o “sertão”, a floresta, o meio rural – mas também elementos outros, ligados ao estrangeiro, ajudariam a compor sua alma de poeta – o “balango de tango” hispano, “uma reza de indiano”, a admiração pelo guerreiro comunista chinês, o interesse pelos meninos lapões. Diferentemente do que se costuma atribuir, pois, correntemente, aos modernistas – a idéia de que concebiam unanimemente o “branco/erudito/castrador/civilizado”, o “índio ou mestiço/popular/espontaneo/criativo” – Mário demarca (de forma polifônica) o que haveria de “branco/popular/múltiplo/completo” na sua forma de ver e apresentar a realidade brasileira de então; por isso sussurrar: “Há um grito imperioso de brancura em mim...” (CANDIDO & CASTELLO, 1974, p. 97).

Depois, Mário sugere que sua identificação com esses outros povos “brancos” não se faria tão somente por desejar (“aspirações”), ou por ter sobre eles adquirido conhecimentos (“pesquisas”). Este sentimento de estar próximo do distante pode ser, muitas vezes, para este autor, subjetivo,  arrebatador (“amoroso”).  “Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser” (CANDIDO & CASTELLO, 1974, p. 97).

Com a modernidade, todavia, o contato com homens dos lugares mais distantes do mundo foi facilitado como, por exemplo, através da imigração – a vinda de trabalhadores brancos (“italianos”, “húngaros, búlgaros, russos”) para ajudar no progresso da pátria brasileira. E para falar sobre isso, Mário recorre às imagens que ele tem guardadas na sua própria memória, da sua cidade natal: “Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampasso dos arranhacéus,/ E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras;/ (...) Emigrados pro quarto-de-hóspedes acolhedor da Sulamérica./(...) Home... Sweet home... Que sejam felizes aqui!” (Idem, p. 98).

O desejo, o conhecimento, a sensação de que haveria qualquer coisa comum entre o poeta e outros homens “brancos”, somados agora contado direto, no Brasil modernizado, com eles, faz Mário rever paradigmas, e apresentar conclusões (ao menos aos olhos daqueles que se contentam com lugares-comuns acerca do projeto modernista) imensamente audaciosas:

Mas eu não posso, não, me sentir negro nem vermelho!
De certo que essas cores também tecem minha roupa arlequinal,
Mas eu não me sinto negro, mas eu não me sinto vermelho.
(...)
Me sinto só branco agora, sem ar neste ar-livre da América!
Me sinto só branco, só branco em minha alma crivada de raças!
(Idem, p. 99)

Será contudo apenas no ano de 1928 que Mário trará a público um livro que expressaria uma melhor sistematização de tais reflexões, presentes nas obras anteriores, acerca (1) da temática da cidade modernizada, (2) das tradições de sua terra paulista, (3) do sentimento de identificação que nos liga ao Brasil como um todo, (4) da percepção de nossa formação cultural híbrida, (5) do papel social da intelectualidade brasileira. Estou de falando do relato pelo referido autor denominado “rapsódico” (semelhante ao dos cantadores nordestinos) – Macunaíma: o herói sem nenhum caráter.

Segundo Maria Augusta Fonseca, Mário teria composto essa sua mais célebre obra de maneira “antropofágica” – recorrendo a transformando conforme seu gosto e necessidade inúmeras proposições de outros estudiosos e escritores. Parte, pois, das pesquisas de um alemão – Koch-Grunberg – sobre a cultura de nossos nativos, mesclando, como disse antes que era seu objetivo primeiro, erudito e popular. Isso quer dizer que muito do que é contado no citado livro não é mera invenção do autor, mas referência a cantos, lendas e ritos dos mais variados lugares de nosso país (FONSECA: 2002, p. 129).

Bom destacar também que, além de remeter a elementos do imaginário popular nacional, o narrador de Macunaíma ainda incorpora a linguagem e a maneira como as histórias foram e são correntemente construídas, pelos iletrados e semiletrados de nosso país; um bom exemplo disto está na insistência em, volta e meia, tal como indígenas, apresentar explicações as mais variadas para a origem das coisas – de palavras, comportamentos humanos, ou fenômenos da natureza. Cito exemplos:

Por isso que existe a expressão “Ta solto!” indicando que a gente não faz mesmo o que nos pedem (ANDRADE: 1975, p. 40).
Desde essa feita que as caranguejeiras preferem fazer fio de noite (Idem, p. 41).
E neste instante, falam, ele inventou o gesto famanado de ofensa: a pavoca (Idem, p. 52).
E foi assim que Maanape com Piaimã inventaram o jogo sublime do truco (Idem, p. 55).
E foi assim que Maanape inventou o bicho-do-café, Jiguê a largarta-rosada (sic) e Macunaíma o futebol, três pragas (Idem, p. 62).
E assim nasceu a expressão “Vá tomar banho!” que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus (Idem, p. 86).
Por isso que quando faz dia em riba das árvores, dentro do mato é sempre noite (Idem, p. 168).
E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi, também conhecida por Boi-Bumbá (Idem, p. 203).
Por isso que ela [a lua] tem aquelas machas escuras na cara (Idem, p. 216).
Por isso que a bonita da estrelinha [Caiuanogue] é tão pequerrucha e tremelica tanto  (Idem, p. 216).

De acordo com Iara Cristina Ricci, Mário dispunha ainda do conhecimento acerca do que vinham propondo, nas últimas décadas, outros pensadores estrangeiros, tal como Koch-Grumberg de origem germânica: Oswald Spengler – autor de A decadência do Ocidente – e Eduard von Keyserling – autor de Meditações Sul-americanas –. Estes últimos advogavam em nome da idéia de que o progresso material teria afastado o homem do interesse por questões espirituais de fundamental importância (RICCI: s/d). Provavelmente daí advém qualquer coisa como um embasamento teórico para a opção por se apresentar um “herói” que tem origem indígena (“primitiva”).

Como expõe o narrador logo no início da trama, Macunaíma era um índio da tribo retinta dos Tapanhuma que tinha dois irmãos – o velho feiticeiro Maanape e o forte guerreiro Jiguê. Desde pequeno gostava de “dinheiro” e “mulheres”, “freqüentava com aplicação” as festas, mas não se interessava por trabalho e nem respeitava as companheiras de seu irmão mais novo, mentia; era, enfim, segundo afirma em determinado momento Rei Nagô, um menino “inteligente” (ANDRADE: 1975, c. 1).

Sempre querendo se dar bem às custas dos outros, ou tão somente se divertir enganando os demais índios da comunidade, não preservava quem quer que fosse, nem ao menos sua própria mãe, que de zangada, um dia, deixou-o numa região encantada da floresta, onde o corpo do menino – por magia, por castigo – estaria impedido de se desenvolver. Macunaíma, portanto, teve de crescer só.

No mato encontrou o Curupira e, escondendo a tristeza do abandono, lhe contou os motivos da punição que sua mãe tapanhuma lhe impusera; ao que o Curupira respondeu: “Tu não é mais curumi, rapaiz, tu não é mais curumi não... Gente grande que faiz isso...” (Idem, c. 2, e p. 20). Após trapacear também com o Curupira, encontrou, ali, uma cotia que, com pena dele, fez uma mandinga com caldo envenenado de aipim, pra fazer o indiozinho ficar grande feito homem. Molhou o corpo; porém, escondendo a cabeça com medo, Macunaíma acabou por ficar para sempre “com carinha enjoativa de piá” (Idem, p. 22).

Naquela mesma noite seguiu de volta para casa, e foi por seus parentes muito bem recebido. Morrendo sua mãe logo em seguida, se juntou aos dois irmãos e à bela índia Iriqui (que roubara de Jiguê, mas que logo seria abandonada, para ser reencontrada apenas no final da trama), e partiu, sem rumo certo, nem motivo bem pensado.

No meio da viagem, Macunaíma conheceu a índia icamiaba Ci, Mãe do Mato, se apaixonou, e se tornou imperador do Mato-Virgem.

E os três manos seguiram com a companheira nova. Atravessaram a cidade das Flores, evitaram o rio das Amarguras passando por debaixo do salto da Felicidade, tomaram a estrada dos Prazeres e chegaram no capão de Meu Bem que fica nos cerros da Venezuela. Foi de lá que Macunaíma imperou sobre os matos misteriosos, enquanto Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras de três pontas (Idem, p. 28).

Foram felizes e tiveram um filho homem, que morreu envenenado pela Cobra Preta, para desgosto de Ci, que resolveu subir aos céus, acabando por se tornar uma estrela, a Beta o Centauro. Antes de morrer, contudo, a índia entregou a Macunaíma a pedra verde em forma de jacaré, que usava no colar – a muiraquitã. Arrebatado de tristeza e sem saber o que fazer pra ser feliz de novo, ele prendeu a lembrança da amada no beiço, e partiu pelo mundo, novamente, com Maanape e Jiguê (Idem, c. 3).

Os três irmãos vivem, pois, na floresta, inúmeras experiências, como a do encontro com o bacharel de Cananéia, momento em que Mário aproveita para montar uma imagem bastante cômica dos intelectuais brasileiros. Note-se que o referido bacharel representa uma figura estática e desinteressante, em contraposição às agitações confusas, de Macunaíma:

Correndo, correndo, légua e meia adiante deram com a casa onde morava o bacharel de Cananéia. O coroca estava na porta sentado e lia manuscritos profundos. Macunaíma falou para ele:
- Como vai, bacharel?
- Menos mal, ignoto rapaz.
- Tomando a fresca, não?
- C’est vrai, como dizem os franceses.
- Bem, té-logo, bacharel, estou meio afobado...
E chisparam outra vez. Atravessaram os sambaquis do Caputera e do Morrete num respiro (Idem, c. 3).

Em meio a isso, Macunaíma perde a muiraquitã e, pela primeira vez em sua vida, chora. Ao menos ganha um sentido para era: buscar, onde quer que fosse, a única lembrança que Ci lhe deixara. Na mata um passarinho uirapuru aparece, então, para contar ao herói e seus irmãos que a pedra havia sido engolida por uma tartaruga, que fora pega por um catador de mariscos, que encontrou o talismã e o vendeu para um italiano súdito do vice-reinado do Peru, o qual acabou por enriquecer, tornando-se fazendeiro, no Brasil, e morador da cidade de São Paulo. Sendo assim, partiu o imperador do Mato (com Maanape e Jiguê) mais uma vez para longe, ainda que, desta, com destino certo (Idem, c. 4).

Para a pesquisadora Silvana Assadi e tantos outros estudiosos desta obra de Mário, a busca pelo talismã perdido equivaleria a uma metáfora acerca da busca pela nossa própria identidade (pela brasilidade) (ASSAD: s/d). Conforme nos aponta Maria Augusta Fonseca, Oswald teria proposto, na Revista de Antropofagia, antes de romper com seu grande companheiro de jornada vanguardista, que Macunaíma era “nossa Odisséia” (FONSECA, s/d) – uma perspectiva um tanto mais ampla, que implica não apenas o fato de que o Brasil necessitaria, antes de mais, se compreender, mas o fato de que o brasileiro precisaria enfrentar os problemas “presentes” (seus vícios e defeitos característicos), sempre saudoso e ligado ao “passado” (sem esquecer de Ci/ si), mas seguindo ansioso em direção ao “futuro”.

No caminho para São Paulo, é narrado um acontecimento bastante interessante, em geral associado, pela historiografia interessada na produção literária modernista brasileira, a uma espécie de teogonia, sobre o surgimento das três raças formadoras do povo do Brasil. Nesse momento específico da história, antes de chegar à capital paulista, Macunaíma sente calor, e não podendo entrar no rio, que naquela região ficava repleto de piranhas, busca na mata onde se banhar. Escolhe, sem saber, um buraco que era a pegada de São Tomé, onde havia uma água encantada, que acabou por transformá-lo em um homem loiro, de olhos azuis. Maravilhado com o acontecido, Jiguê salta lá dentro, onde restava apenas uma água suja do pretume de Macunaíma, que fez com que Jiguê ganhasse um tom de pele apenas um pouco mais claro, “da cor do bronze novo”. Em seguida, conta-se que Maanape quis entrar no buraco da pegada de são Tomé também, mas, como ali restava pouco da água encantada, molhou apenas as solas dos pés e as palmas das mãos.

E estava lindíssima na Sol da lapa os três manos um louro um vermelho outro negro, de pé bem erguidos e nus. Todos os seres do mato espiavam assombrados. O jacareuma o jacaretinga, o jacaré-açu o jacaré-ururau de papo amarelo, todos esses jacarés botaram os olhos de rochedo pra fora d’água. Nos ramos das igazeiras das aningas das mamoranas das embaúbas dos catauaris de beira-rio o macaco-prego o macaco-de-cheiro o guariba o bugio o cuatá o barrigudo o coxiú o cairara, todos os quarenta macacos do Brasil, todos, espiaram babando de inveja. (...) Macunaíma teve ódio. Botou a mão nas ancas e gritou pra natureza:

- Nunca viu não! (ANDRADE: 1975, p. 49)

Já em São Paulo Macunaíma aprende muitas coisas: que tinha que pagar a comida que encontrasse pra comer e também as mulheres com quem se deitasse; conheceu ainda a cachaça, a macumba, Blaise Cendras e Manuel Bandeira, num terreiro de Exu (Idem. p. 82). Nesse momento Mário parece retomar a descrição “desvairada” de sua terra natal, já esboçada anos antes, em Paulicéia...

A princípio Macunaíma fica pasmo diante do avanço tecnológico tão característico da capital paulista – com a existência de “elevadores (...) campainhas apitos buzinas (...) fordes (...) chevrolés (...) caminhões bondes autobondes anúncios luminosos relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés” (ANDRADE : 1975, p. 51); julgou, então, que aquilo que os paulistanos chamavam “Máquina” era uma deusa, e, embora lhe tenham explicado que aquelas benfeitorias eram realizações dos homens, e que por isso lhes pertenciam, não acreditou.

Todavia, com o tempo percebeu os problemas sociais decorrentes da invenção da técnica, e se dedicou a pensar a respeito:

Constatou que os filhos da mandioca eram donos sem mistério e sem força da máquina sem mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades por si. Estava nostálgico assim, até que uma noite, suspenso no terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu:
- Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate.
Não concluiu mais nada porque inda não estava acostumado com discursos porém palpitava para ele muito embrulhadamente muito! que a máquina devia de ser um deus de que os homens não eram verdadeiros donos (...).
E de toda essa embrulhada o pensamento dele sacou bem clarinha uma luz: Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens. Macunaíma deu uma grande gargalhada (Idem. p. 53).

Em determinado momento do livro, o autor interrompe o relato para reproduzir uma carta enviada por Macunaíma às icamiabas. Nesta carta, o remetente conta o motivo de estar escrevendo de São Paulo (a busca da perdida muiraquitã), assim como tudo quanto havia por lá descoberto: as brincadeiras “francesas” das prostitutas paulistanas, a demografia urbana, as eleições para cargos públicos, os problemas de salubridade, a criminalidade, a subserviência do país em relação aos interesses estadunidenses, a industrialização (Idem. c. 9).

Entretanto o que Macunaíma, na carta para as icamiabas, parece julgar ser o mais curioso na capital paulista é mais precisamente o fato de que seus moradores usariam duas línguas: uma para escrever – o português –, e outra para falar – o brasileiro, “bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar”. Por isso o próprio estilo utilizado pelo protagonista, nas páginas referentes à missiva – formal e erudito, com referências acadêmicas e vocabulário pomposo – é tão distinto da maneira como ele se manifesta nos diálogos, apresentados no restante da obra (Idem. p. 106-107).

Macunaíma descobre, em São Paulo, que o novo dono da muiraquitã, Venceslau Pietro Pietra, era o gigante Piaimã comedor de gente.[5] Para entrar na casa de Pietro Pietra, pois, inventa várias artimanhas, dentre as quais a de se vestir de mulher para seduzi-lo. A imagem que o narrador, então, apresenta da parte interior da moradia do gigante é recheada de referências aos mais diversos cantos do Brasil: haveria lá redes maranhenses,