Sérgio Buarque de Holanda
 

 

Estudo Introdutório:
Perfil biográfico de Sérgio Buarque de Holanda

 

Ana L.O.D. Ferreira

Sérgio Buarque de Holanda nasceu no ano de 1902, na cidade brasileira de São Paulo.

Em 1920 publicou, no Correio Paulistano, seu primeiro artigo crítico, por estímulo de Alfonso de Taunay, que havia sido, por muitos anos, seu professor de História. Chamando Originalidade Literária, tal texto debatia limites e potencialidades da Literatura produzida, então, no Brasil.

Começou, em seguida, a colaborar para aquele mesmo jornal com certa regularidade; publicou ainda na Cigarra e na Revista do Brasil. Estabeleceu, assim, contato com figuras ligadas ao movimento vanguardista brasileiro, o modernismo, que ia esboçando os primeiros passos naquela época: conheceu os também paulistas Guilherme e Tácito de Almeida, Oswald e Mário de Andrade, Menotti del Pecchia.

Em 1921, mudou-se para a então capital brasileira, o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso de Direito. Na faculdade conheceu Prudente de Morais Neto, com o qual, no ano de 1924, juntamente com Graça Aranha, fundou a revista (de inclinação vanguardista) Estética. Foi, também, representante da Klaxon.

Dentre os amigos cariocas estiveram os modernistas: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Ronald de Carvalho, o pintor Di Cavalcanti, e o músico Villa-Lobos. Dentre os vanguardistas estrangeiros que vieram ao Brasil naquele período, teve contato, entre outros, com: Marinetti e Blaise Cendras. No Rio conheceu ainda o escritor paulista Paulo Prado, e, muitos anos depois, o pernambucano Gilberto Freyre.

Mesmo tendo obtido o diploma de bacharel em Direito em 1925, fez de seu ganha-pão o jornalismo: entrevistava figurões e redigia artigos para Rio jornal, para Idéia Ilustrada, e para O Jornal. O escrever textos críticos começava a se revelar, também, a despeito de sua formação universitária, sua grande paixão: mesmo não sendo remunerado, dedicava-se a publicar em América Brasileira, O mundo Literário, entre outros periódicos de expressão na época.

Em 1926 mudou-se, surpreendentemente, para uma pequenina cidade do estado brasileiro do Espírito Santo (Cachoeiro do Itapemerim), onde passou a trabalhar como editor chefe do jornal O progresso. É um ano considerado importantíssimo na vida e na formação intelectual de Sérgio, pois – crê-se – denota o desejo de afastar-se do projeto modernista.

Retornou ao Rio para trabalhar no Jornal do Brasil, pelo qual foi, em 1929, enviado à Alemanha, como correspondente; lá colaborou para a revista especializada em comércio internacional, Duco, e escreveu críticas de cinema. Foi ouvinte em diversas aulas da Universidade de Berlim, tais como as do historiador Friedrick Meinecke; comprou e leu livros de Max Weber e revistas ligadas ao movimento expressionista, até que a estadia em território alemão terminou, em 1930 – ano em que Getúlio Vargas tomou posse do cargo de primeiro chefe de estado brasileiro.

Em artigo acerca do posicionamento político de Sérgio, Antonio Candido afirma que ele nunca chegou de fato a assumir uma postura bem definida – convidado a integrar o Bloco Operário Camponês, de orientação comunista, em 1929, por exemplo, veio a recusar. Por outro lado, não se pode dizer, conforme Candido, que tenha sido alheio aos acontecimentos políticos de seu tempo – durante a Revolução Constitucionalista (1932) chegou a ser preso por manifestar-se a favor dos insurgentes.

Em 1935 Sérgio publicou na revista Espelho um primeiro esboço das reflexões que desenvolvera a partir de sua experiência em terra estrangeira – o artigo Corpo e alma do Brasil.

Novamente vivendo no Rio de Janeiro, num ano de 1936, casou-se com Maria Amélia; lançou pela editora José Olympio seu primeiro livro – Raízes do Brasil; e tornou-se assistente dos professores franceses (respectivamente, de História e Literatura) Henri Hauser e Henri Tronchon, na Universidade do Distrito Federal.

Em 1937, enfim, assumiu, na mesma UDF, as cadeiras de História da América e de Cultura Luso-Brasileira; em 1939, contudo, tendo sido extinta a dita instituição, tornou-se responsável pela seção de publicações do Instituto Nacional do Livro, órgão do governo federal. Paralelamente, continuava contribuindo para periódicos de larga divulgação, e traduzindo clássicos estrangeiros.

Em 1944, assumiu cargo na divisão de consultas da Biblioteca Nacional, e publicou seus segundo e terceiro livros: um, juntamente com Otávio Tarquínio de Souza, também pela editora José Olympio – História do Brasil –, e outro pela editora Livraria Martins – Cobra de vidro. Seu quarto livro – Monções – saiu pela Casa do Estudante do Brasil em 1945, mesmo ano em que Sérgio participou, em São Paulo, como presidente da Associação Brasileira de Escritores, do famoso encontro de escritores críticos ao governo ditatorial de Getúlio Vargas: o chamado Congresso de Escritores.

Em 1946 voltou a viver em São Paulo, onde dirigiu o Museu Paulista; seguiu escrevendo prefácios para clássicos nacionais, assim como críticas literárias para jornais e revistas, dentre os quais o Diário de Notícias, o Diário Carioca, a Folha de São Paulo e o Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo.

Em 1947 é integrante do recém-criado Partido Socialista Brasileiro.

A partir de 1948 ministrou, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o curso de História Econômica do Brasil (ali mais tarde também se encarregaria da disciplina História Social e Política). Veio, então, a público, editado pela Faculdade de Ciências Econômicas, seu quinto livro – Os primórdios da expansão paulista no século XVI e começo do século XVII.

Em 1949 publicou, nos anais do Museu Paulista, a sexta obra: Índios e mamelucos na expansão paulista; também visitou a França e a Itália com intenções intelectuais e diplomáticas. Três anos depois, saiu Antologia de poetas brasileiros na fase colonial.

Em 1953 foi convidado para dar aulas na Universidade de Roma, junto à qual passou a editar uma revista sobre o Brasil, a Ausonia. Lá travou contato com inúmeros intelectuais, sempre com o intuito de difundir conhecimentos acerca da realidade político-econômica e sócio-cultural, histórica, brasileira. Na ocasião, conheceu também a Suíça.

De volta da Itália à terra natal em 1955, tornou a trabalhar no Museu Paulista e a lecionar, agora História da Civilização Brasileira, numa das hoje mais importantes instituições de ensino superior e pesquisa do Brasil, a Universidade de São Paulo; assumiu também cargo no Museu de Arte Moderna. Lançou, dois anos depois, o oitavo livro – Caminhos e fronteiras – também pela José Olympio.

Tornou-se Mestre pela USP em 1958, com a tese Visão do Paraíso; os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil, que logo foi publicada pela mesma editora. Neste ano também trouxe a público um livro sobre a vida e a obra do amigo Manuel Bandeira – Trajetória de uma poesia.

De 1960 a 1972 dedicou-se a um largo empreendimento: uma coleção dedicada às pesquisas mais recentes sobre a história do país, de nome História geral da civilização brasileira. Dos volumes nela contidos, ele próprio redige A época colonial, do descobrimento à expansão colonial (publicado em 1960); A época colonial, administração, economia, sociedade (1960); O Brasil monárquico, o processo de emancipação (1963); O Brasil monárquico, dispersão e unidade (1964); O Brasil monárquico, reações e transações (1967); O Brasil monárquico: declínio e queda do Império (1971); O Brasil monárquico, do Império à República (1972).

Em 1962, tornou-se diretor do recém-criado Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP.

1964 marcou o início da ditadura militar no Brasil. Cinco anos depois, em face do chamado Ato Institucional número 5 – que cerceou as liberdades políticas e civis dos cidadãos brasileiros – diversos companheiros de Sérgio na USP, adversário políticos do governo, foram compulsoriamente aposentados, fazendo com que ele, em solidariedade, viesse a requerer, tão cedo, sua aposentadoria. Mesmo assim, prosseguiu pesquisando, em sua própria residência. Em 1980, juntamente com Luiz Inácio da Silva (atual presidente do Brasil) e tantos outros, seria um dos fundadores do (então esquerdista) Partido dos Trabalhadores.

Sérgio viajou para a Inglaterra, Portugal e Grécia, Turquia, Hungria e Áustria, Estados Unidos, México Costa Rica, Perú, Venezuela, Argentina e Chile.

Em 1961 recebera do governo francês a condecoração de Officier de l’Ordre des Arts ey des Lettres. Em 1979, por ser considerado o intelectual brasileiro do ano, recebeu o prêmio Juca Pato; e, pelo mérito de seus ensaios, o Jabuti. Publicou nesta mesma data, pela Editora Perspectiva, seu último livro: Tentativas de mitologia. Veio a falecer três anos depois, aos exatos 80 anos de idade.

 

Referências Bibliográficas:

  • BUARQUE DE HOLANDA, Maria Amélia. Apontamentos para a cronologia de Sérgio Buarque de Holanda. In: HOLANDA, S. B. H. Raízes do Brasil – edição comemorativa 70 anos. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

  • CANDIDO, Antonio. A visão política de Sérgio Buarque de Holanda. In: CANDIDO, Antonio (org.) Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 1998.

  • GALVÃO, Vanice. a fortuna crítica de Sérgio Buarque de Holanda. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org). Leituras cruzadas: diálogos da história com a literatura. Porto Alegre: Ed. Universidade, 2000.

 

Referência da Imagem:

  • Acervo Bloch. In: HOLANDA, Sérgio Buarque . Raízes do Brasil. Organização Ricardo Benzaquen de Araújo, Lilia Moritz Scharcz. “Edição comemorativa 70 anos” – São Paulo: Cia das Letras, 2006.

Ana L.O.D. Ferreira
Actualizado: septiembre 2007

 

© José Luis Gómez-Martínez
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