Fábio Inácio Pereira

 

"A EDUCAÇÃO EM NUESTRA AMÉRICA DE JOSÉ MARTÍ"

Fábio Inácio Pereira

A questão da identidade na América Latina é abordada de maneira recorrente desde o processo colonial. Ela foi estabelecida, segundo Quijano:

(...) desde a violenta destruição das sociedades/culturas aborígines pelos invasores europeus. (1992, p. 74)

Ganhou maior destaque, entretanto, a partir das lutas pela Independência colonial[1]. Nos últimos trinta anos, esta problemática vem sendo retomada, agora, com grande força por estudiosos de diversas áreas de conhecimento.

Em meio às vozes anticoloniais do século XIX, surge a do cubano José Martí (1853-1895), contra todas as formas de dominação colonial e àquelas que levam à dependência, sobretudo, em relação ao imperialismo que se organizava na América do Norte.

Ao escrever Nuestra América, publicado em janeiro de 1891 no periódico mexicano El Partido Liberal, José Martí traz, para a ordem do dia, o problema da identidade latino-americana que, para ele, passava, num primeiro momento, pela organização da guerra contra os espanhóis e, em um segundo momento, por um processo de instrumentalização do homem americano em relação às pretensões dos Estados Unidos. Dessa forma, por meio de um processo educacional, garantir-se a dignidade de todos contra o imperialismo nascente e suas pretensões.

Ao perceber essa realidade, Martí propõe a união dos povos latinos como caminho necessário à integração continental num processo que desencadeasse o despertar[2] contra a opressão social e cultural. O que explica a sua convocação aos povos latino-americanos.

Los pueblos que no se conocen han de darse prisa para conocerse, como quienes van a pelear juntos. Los que se enseñan los puños, como hermanos celosos, que quieren los dos la misma tierra, o el de casa chica, que le tiene envidia al de casa mejor, hen de encajar, de modo que sean una, las dos manos. (1985, p. 157)

A rigor, Martí propõe a união dos latino-americanos, conservando a autonomia e as particularidades de cada país para fazer frente às formas coloniais e imperialistas. Dessa forma, insistia:

Es la hora del recuento, y de la marcha unida, y hemos de andar em cuadro apretado, como la plata en la raíces de los Andes. (1985, p. 158)

O reconhecimento das diferenças e a educação do homem latino-americano colocavam-se como questões imprescindíveis para se alcançar uma saída comum para a América Latina.

Para o libertador, umas das causas do processo de opressão e destruição das culturas da América Latina era a desunião entre os povos que, fatalmente, possibilitou a ação avassaladora sobre os indígenas, posteriormente, o negro e, enfim, sobre toda a América Latina.

Nesse sentido, preocupava-se em denunciar os que negam a América Latina como sua pátria e que se envergonham de levar o rosto indígena.

A los sietemesinos sólo les faltará el valor. Los que no tienen fe en su tierra son hombres de siete meses. Porque les falta el valor a ellos, se lo niegan a los demás. (1891, p.158)

A sua análise sobre o papel da educação e da importância da cultura para o desenvolvimento latino-americano levam em consideração o aspecto integral dos homens, o resgate e a consolidação de sua própria identidade. O que explica o seu combate aos que pretendiam apagar a história dos povos da América em nome de assumir padrões de uma civilização estranha.

Por eso el libro importado ha sido vencido en América por el hombre natural. Los hombres naturales han vencido a los letrados artificiales. El mestizo autóctono ha vencido al criollo exótico. No hay batalla entre la civilización y la barbarie, sino entre la falsa erudición y la naturaleza. (1985, p. 160)

A idéia era buscar um caminho a partir da própria realidade, uma vez que os livros europeus ou norte-americanos não apresentavam a chave de compreensão do latino-americano.

Segundo Martí, àqueles convocados à administração das repúblicas caberia conhecer com profundidade os elementos de que está constituída sua terra, pois só assim seriam capazes de governar no sentido de se obter uma vida digna. O governo de um povo deveria surgir de sua própria terra.

¿Como han de salir de las universidades los gobernantes, si no hay universidad en América donde se enseñe lo rudimentario del arte de gobierno, que es el análisis de los elementos peculiares de los pueblos de América? (1985, pp. 160-161)

Sua tese era de que nenhum povo pode fazer frente a suas dificuldades se não tiver enraizado, em sua história, a memória de seus antepassados. O governante só estaria cumprindo o seu papel administrativo se seu conhecimento estivesse em conformidade com seu povo.

O conhecimento e a identificação de um governo com seu povo eram, para Martí, o único modo de livrá-lo de todas as formas de tirania.

La Universidad europea há de ceder a la Universidad americana. La historia de América, de los incas acá, ha de enseñarse al dedillo, auque no se enseñe la de los arcontes de Grecia. Nuestra Grecia es preferible a la Grecia que no es nuestra. Nos es más necesaria. (1985, p. 161)

Para Martí, o resgate do pensamento e da cultura latino-americana seria fundamental para a valorização do continente, uma vez que revelaria a sua identidade.

A busca por identificar uma identidade comum, levou o revolucionário cubano a afirmar que o homem americano deveria realizar-se plenamente em cada pessoa do continente e, em conjunto, exigir a ruptura com toda a situação de dependência e dominação:

Se ponen en pie los pueblos, y se saludan. “¿Cómo somos?” se preguntan; y unos a otros se van diciendo cómo son. Cuando aparece en Cojímar un problema, no van a buscar la solución a Dantzig. Las levitas son todavía de Francia, pero el pensamiento empieza a ser de América. (1985, p. 164)

Sua proposta não se apresentava como projeto acabado, visto o desafio dos americanos continuarem a construção deste ideal, sobre as bases da resistência já firmadas no continente.

Los jóvenes de América se ponen la camisa al codo, hunden las manos en la masa, y la levantan con la levadura de su sudor. Entienden que se imita demasiado, y que la salvación está en crear. Crear el la palabra de pase de esta generación. (1985, p. 165)

Sendo assim, a história americana deveria ser estudada, não só para se conhecê-la, mas também para defrontar-se com seus problemas, pois, somente conhecendo-a e tornando-a conhecida, a mesma seria respeitada e demonstraria a posição norte-americana sobre o continente latino.

Martí, profundamente ligado ao seu tempo, não abria mão da procura constante de crescimento de seu povo. Entendia que era preciso empreender uma cruzada para revelar aos homens sua natureza e, através dos estudos científicos, promover a independência pessoal e social de Cuba e da América Latina. Tarefa árdua e que Martí apontava com uma ressalva, metaforicamente:

Injértese em nuestras repúblicas el mundo; pero el tronco há de ser el de nuestras repúblicas. (1985, p.161)

Essa certeza José Martí justificava através da sua confiança incondicional no homem. Para ele, era preciso ter fé no melhor do homem e desconfiar do pior nele. Era preciso dar oportunidade ao melhor, pois, quando esse se revela, se sobrepõe ao pior que existe no homem.

 

Referências Bibliográficas

  • CÁCERES, Florival. História da América. São Paulo: Moderna, 1980.

  • QUIJANO, Aníbal. In.: Estudos Avançados. Notas sobre a questão da identidade e nação no Peru. Vol. 6, n° 16, set/dez, São Paulo: Edusp, 1992.

  • MARTÍ, José. Nossa América: (antologia). São Paulo: Hucitec, 1983.

  • __________. Paginas Escogidas v. I e II. Selección y Prologo de Roberto Fernández Retamar. La Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 1985.

  • ZEA, Leopoldo. Fuentes de la cultura latinoamericana. México: Tierra Firme, 1995.

[1] O problema está presente em boa parte da produção intelectual nos países da América Latina e Caribe. Citamos alguns exemplos: na Argentina, Domingo F. Sarmiento (Facundo), Juan B. Alberdi (Bases y Puntos de Partida para la Organización Política de la República Argentina); no Peru, José Carlos Mariategui (Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana); no México, Andrés Molina Enríquez (Los Grandes Problemas Nacionales), Octavio Paz (El Laberinto de la Soledad); no Brasil, Gilberto Freyre (Interpretação do Brasil), Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil) e Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro), entre outros.

[2] Martí, 1991: Lo que quede de aldeã em América há de despertar.

 

  
© José Luis Gómez-Martínez
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